Boletim n° 62 - Cientistas Sociais e o coronavírus

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Boletim Especial n. 62 - 15/06/2020


Boletim n. 62 | Cientistas sociais e o coronavírus

Imagens que falam da pandemia

Por José R de J Santos

Observar a nova realidade social é um exercício de reflexão e ponderação sobre as novas estéticas e novas fronteiras que emergem a partir das novas etiquetas sociais. Elas são impostas pelo distanciamento social de prevenção da propagação e contaminação pelo novo coronavírus.

Os padrões binários constituintes deste novo modelo civilizatório são traduzidos nas mais distintas linguagens. Aqui, iremos evidenciar a fotografia artística conceitual e o “meme”, manifestações cuja linguagem traduz os olhares e perspectivas diferenciadas dos seus criadores sobre o que estamos vivendo e que permitem aos intérpretes análises e construções epistemológicas sobre a imagem que se apresenta como forma de exposição da realidade.

Capturar imagens na internet e usá-las em textos e artigos é comum. Buscar entender o que fez com que aquela imagem ou “meme” tivesse propagação e reconhecimento, a partir de um conceito ou ideia, é um exercício de reflexão que agrega a linguagem sociológica com a linguagem imagética. Este ensaio, portanto, é um ponto de reflexão e construção do debate sobre o que se posta na internet. E o que entendemos sobre ela no contexto da pandemia.

Boletim62 figura1Imagem 01. Meme capturado da internet. Autor desconhecido

A imagem 01 demonstra a forma como a sociedade se percebe imersa em uma nova estética global, usando máscaras e outros procedimentos de higienização e etiqueta social. Ela faz referência à irracionalidade para promover a reflexão. De forma metafórica, cria uma analogia entre o uso da máscara e o uso da focinheira, e permite observar a emergência de uma estética cotidiana imposta pelo comportamento de prevenção ao vírus.

Assim como a focinheira exerce o papel de disciplinar, vigiar e manter as distâncias daqueles que a usam, as máscaras exigem de cada indivíduo um conjunto de etiquetas que são cobradas em todos os espaços sociais. Nesses espaços, todos passam a disciplinar, a vigiar e manter distâncias com relação ao outro. Eles são motivados pela suspeita e dúvida, medo e desconfianças, cultivam um temor da morte e se assombram com a possibilidade de contaminação ou não com o vírus. Neste cenário, potencializam-se as violências e desigualdades. Racismo, sexismo, intolerância religiosa, preconceito de classe e origem se multiplicam nas redes sociais e ganham os espaços físicos das cidades. Disto tem-se que os cenários são desdobramentos das políticas de combate à disseminação e propagação do vírus, e têm produzido um modelo de política que implica na eliminação do outro. Esta necropolítica (MBEMBE, 2016; 2020), evidencia a voracidade com que os governos se preocupam com a economia em detrimento da vida dos seres humanos. Refrear esta voracidade e reduzir os lucros não faz parte do imaginário e do dicionário capitalista.

O rol da nova etiqueta social que se apresenta à humanidade determina que haja vigilância com relação aos que não estão no novo modelo. A versão humana 2020 requer máscaras e distanciamentos.

Boletim62 figura2Imagem 02 – autoria de Kleyson Assis, disponibilizada pelo autor para esta publicação

A imagem 02 é de autoria do Prof. Dr. Kleyson Assis, fotógrafo e filósofo. Ela possibilita uma reflexão enigmática que resgata o passado e expressa a ausência do futuro. Demonstra como a gravura de Étienne Victor Arago, que representa uma mulher negra escravizada e condenada ao uso de uma máscara no séc. XVIII, pode ganhar novos contornos.

Na sua leitura, ele apresenta a gravura emoldurada em grades, que traduzem a condição diaspórica da mulher negra aprisionada e escravizada e, ao mesmo tempo, apresenta a ausência do ser na cadeira onde repousa a caneca. Aí, o passado traduz a condição social de existência da mulher negra na contemporaneidade e coloca em suspensão o futuro, incerto pelas ausências produzidas pela necropolítica, que vitimizam jovens negras e negros nas periferias dos grandes centros.

A imagem que resgata o passado para compreendermos o presente permite que os intérpretes observem que os usos das máscaras são múltiplos. E que no passado, não muito distante, amordaçou pessoas para demonstrar o poder do patriarcalismo escravocrata em controlar e impor regras de conduta e sobrevivência aos negros escravizados.

A subalternização das populações descendentes dos povos escravizados é evidente, e os binarismos da pandemia atuam com maior incidência sobre esses corpos, já estigmatizados e discriminados na sociedade.

A ausência do passado e a expectativa de que há um lugar vago à espera de alguém está presente na cadeira onde repousa a caneca. O gradeado que emoldura a gravura reúne habilidades de serralheria e, ao mesmo tempo, atribui significado à imagem, comumente apresentada sem molduras, solta no ar e, consequentemente, sem raízes e histórias.

As duas imagens são produtos de visões de mundo e sobre a pandemia. Em comum, estão alojadas na internet e representam leituras distintas sobre a condição de existência de homens e mulheres. O uso da máscara é de grande importância para a preservação da vida neste momento de pandemia, isso é indiscutível. Mas as distinções e binarismos que impedem deslocamentos, estabelecem vigilâncias sobre os corpos, potencializam as desigualdades e reforçam uma estética, como modo de proceder dos indivíduos na vida cotidiana, atua de forma açodada sobre aqueles que estão à margem da sociedade.

Dessa relação binária entre ter ou não ter sido exposto ao vírus, ter ou não ter sido contaminado, ter ou não ter condições para preservação do emprego e das condições sanitárias e de higiene, implica na emergência de um novo modelo civilizatório, regido por uma vigilância sanitária que exercerá um disciplinamento sobre os corpos e controle sobre os deslocamentos, restringindo as formas de sociabilidade e inserção nos espaços sociais.

A reflexão que se faz necessária perpassa pelas restrições de deslocamentos e pela desconfiança e medo do vírus. A vacina, para além da cura, resgatará padrões deixados à margem durante a pandemia, mas, em si, fará surgir outro binarismo, ter ou não ter sido vacinado. Isso quer dizer que surgirão novos passaportes e que a empregabilidade, as relações sociais, o namoro, a amizade terão como parâmetro de confiabilidade a existência de anticorpos. A visão de mundo que emerge dessa pandemia desnuda elementos de uma necropolítica e de uma epistemologia focada nas relações de soberania, poder e vigilância dos corpos.

José Raimundo de Jesus Santos é sociólogo, possui doutorado em Ciências Sociais pelo PPGCS/UFBA e é professor adjunto do CFP/UFRB,.

Referências bibliográficas:

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o Subalterno Falar? Tradução Sandra R Almeida, Marcos P Feitosa e André P Feitosa. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2018.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. Biopoder, soberania, estado de exceção e política da morte. Arte & Ensaios | revista do ppgav/eba/ufrj | n. 32 | dezembro 2016. Disponível em: https://revistas.ufrj.br/index.php/ae/article/view/8993

Folha de São Paulo. Pandemia democratizou poder de matar, diz autor da teoria da 'necropolítica'. Entrevista de Achille Mbembe a Diogo Bercito, em 30/03/2020, disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/pandemia-democratizou-poder-de-matar-diz-autor-da-teoria-da-necropolitica.shtml
 


Religião e Covid-19: notas sobre Cristianismos

Por Renata de Castro Menezes e Lívia Reis Santos

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Foto: Caroline M. de Melo Bottino. Etnografia em confinamento: projeção em bairro da região suburbana, Rio de Janeiro, março de 2020.

Há um desafio imenso colocado para os/as cientistas sociais, o de interpretar, à luz de suas experiências de pesquisa acumuladas, a realidade inédita imposta pela Covid-19 e assim distinguir alguns fios de Ariadne no labirinto vertiginoso em que fomos lançados. Os/as que trabalham com a sub-área da religião (notadamente da Antropologia da Religião com foco no Cristianismo, como é nosso caso) também se sentem interpelados, pois uma série de fenômenos relacionados a esse campo de estudos se tornaram evidentes e se potencializaram a partir da pandemia. Devido a seu volume, o que pretendemos apresentar aqui é um registro impressionista de sua variedade, acompanhado de algumas problematizações. São fenômenos que embora surjam com força no caso brasileiro, possuem características comparáveis, ainda que com variações significativas, no cenário mundial.

É sintomático que, no início de abril, quando começávamos a rascunhar essas linhas, tenhamos encontrado na mesma tarde, em espaços virtuais distintos, três notícias em que religião e Covid-19 apareciam relacionadas, uma espécie de emblema do caráter transversal das questões religiosas na dinâmica da situação atual. A primeira, uma matéria da agência de notícias A-pública, postada na página do Facebook de um colega pesquisador da área, abordava as coalizões evangélicas que demandaram ao Presidente da República a manutenção das igrejas abertas durante o período de isolamento social, reconhecendo-as como um serviço essencial à população, e o apoio das lideranças evangélicas ao dia de jejum e oração convocado pelo Presidente no Domingo de Ramos. A segunda notícia veio do Portal G1 e versava sobre novas formas de comemoração da Semana Santa pela Igreja Católica no contexto da pandemia, evitando aglomerações. Após a divulgação ao vivo da benção Urbis et Orbis solitária do Papa Francisco, diretamente do Vaticano, cardeais e bispos começaram a dar tratos à criatividade para a produção de liturgias não-presenciais. E a terceira, uma mensagem de Whatsapp, com um link para um vídeo também postado no Facebook, que registrava o encontro de um grupo de católicos carismáticos com o Presidente às portas do Palácio da Alvorada, no qual os fiéis fizeram uma oração por ele e contra o comunismo.

Embora tratem de grupos religiosos diferentes, os temas das matérias têm pontos de contato. Primeiro, porque apontam o papel fundamental das lideranças religiosas – não apenas evangélicas – no apoio a Bolsonaro, muitas vezes contrapondo-se ao Estado como a instância de tomada de decisões sobre as medidas de prevenção durante a pandemia, isto é, aquelas defendidas pela OMS, pela grande maioria dos governos estaduais e eventualmente pelo Ministério da Saúde. Em segundo lugar, porque revelam a habilidade das igrejas em jogar com a ambivalência dos atos religiosos de seu repertório “clássico”, como jejuns e orações, e evidenciar sua dimensão política. Nesse sentido, orar, louvar e sacrificar são percebidos pelos cristãos como um esforço pessoal possível a ser feito em prol do bem comum neste momento de incertezas. Ao mesmo tempo, essas cerimônias nas quais se reza e sacrifica por algo, inclusive para que cientistas encontrem a cura, têm efeitos de sacralização que consagram velhas e novas lideranças religiosas.

Assim, se, por um lado, o imbricamento entre religião e política é evidente e debatido intensamente, a ciência desponta por outro como um personagem significativo dessa disputa. Ironicamente, a pandemia nos traz a possibilidade de atualizar um embate clássico do pensamento e da história ocidentais, aquele que opõe ciência e religião, e nosso desafio é não cair na armadilha iluminista de reificar essa oposição. Para isso, sem desconsiderar que há polarizações em jogo, também nos cabe pensar em combinações possíveis e em situações em que ambas se reforçam e se fortalecem.

Como pano de fundo, temos a controvérsia pública em torno do posicionamento negacionista de alguns líderes religiosos, que estaria na base da reivindicação pela abertura dos templos. O tom de denúncia que tomou conta dos jornais e da internet é legítimo se considerarmos as recomendações de distanciamento social da OMS, mas isso não significa que toda demanda por atividade religiosa seja por cultos com aglomeração. Temos que considerar que esses mesmos espaços realizam trabalhos de assistência social, apoio profissional e acolhimento que são fundamentais para enormes parcelas da população brasileira e que, tanto quanto as atividades espirituais, são parte constitutiva da vida religiosa. Acessar estes trabalhos – não apenas para receber, mas também para doar - não é trivial. Trata-se da manutenção de um vínculo que dissolve as fronteiras entre material e imaterial, ainda mais fundamental quando o sentimento público comum é o medo. No caso das populações mais pobres, tão representativas do segmento evangélico no país, um medo potencializado pela situação de desigualdade social enfrentada cotidianamente.

De fato, a imprevisibilidade sobre o futuro, agora intensificada, faz com que o pensamento religioso seja um modo possível de organizar e dar sentido ao mundo: estamos ameaçados por uma praga desconhecida que produzirá uma ruptura radical no tempo. Inevitavelmente, haverá um antes e um depois desta pandemia. Se para as pessoas, em geral, o período de isolamento tem sido encarado como uma provação e marcado por uma busca por bem-estar físico e emocional, é compreensível que pessoas religiosas mobilizem suas próprias referências e se disponham a compor correntes de oração e práticas de jejum em prol do bem-estar individual e coletivo, e isso não significa negar a ciência.

Um breve acompanhamento dos cultos e lives online de líderes de grandes igrejas, influencers espirituais e artistas gospel que incentivam o isolamento social, permitiu identificar que muitos cristãos compartilham uma enorme angústia em relação ao futuro e, justamente por isso, buscam manter algum vínculo religioso. Ao mesmo tempo, a pandemia evidenciou um movimento que já vinha sendo feito pelos fiéis, que é a possibilidade de existir enquanto cristão sem a necessidade de frequentar o espaço físico da igreja. Para além dos já conhecidos fenômenos de múltiplo pertencimento e “des-igrejização”, a multiplicação do acesso tecnológico e a difusão da internet permitiram a proliferação de formas alternativas de se viver o cristianismo. Em geral, são facilitadas pela mediação de redes sociais. Nesse caso, a incorporação da tecnologia tem ajudado a ampliar a heterogeneidade cristã.

Talvez a pergunta a ser feita seja: a quem interessa, no contexto atual, uma polarização entre religião e ciência? Há muito as pesquisas que tematizam religião e política nos ensinam sobre falsas oposições e há mais tempo ainda a antropologia demonstrou a proximidade entre pensamento científico, mágico e religioso. Devemos lembrar, ainda, que os próprios cristãos recorrem à ciência para legitimar suas pautas nas principais controvérsias públicas de que são parte, como no caso do aborto e da “cura gay”, por exemplo. Assim como mobilizam argumentos e práticas seculares na arena pública de debate, sobretudo na política institucional. Não seria diferente agora. Para o bem e para o mal, a fé cristã, neste momento, vem sendo vivenciada por lideranças e por fiéis de diferentes formas e é mais importante estarmos atentos aos horizontes de possibilidades ao invés de minimizar a complexidade dessa dinâmica.

Renata de Castro Menezes é professora associada do Departamento de Antropologia do Museu Nacional/UFRJ, Pesquisadora Cientista do Nosso Estado, Faperj; bolsista produtividade do CNPq. Email: renata.menezes@mn.ufrj.br

Lívia Reis Santos é pesquisadora de pós-doutorado (PNPD/Capes) do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ. Email: liviareisa@gmail.com

Referências:

Matéria da A Pública: https://apublica.org/2020/04/o-lobby-dos-evangelicos-contra-o-fechamento-das-igrejas/

Matéria do G1: https://tinyurl.com/vy9d5x3

Vídeo do Facebook: https://www.youtube.com/watch?v=laomTbE13a0

Referências bibliográficas:

BIRMAN, Patrícia. Religião e Espaço Público. São Paulo: Attar Editorial / CNPq / PRONEX, 2003.

DUARTE, Luiz Fernando Dias et al. (Orgs.). Valores religiosos e legislação no Brasil: a tramitação de projetos de lei sobre temas morais controversos. Rio de Janeiro: Garamond, 2009.

MONTERO, Paula. Ritos católicos e ritos civis: a configuração da fala pública da igreja católica em dois atos em memória de Vladmir Herzog (1975/2015). Mana [online]. 2016, vol.22, n.3, pp.705-735.

GIUMBELLI, Emerson. Símbolos Religiosos em Controvérsias. São Paulo: Terceiro Nome, 2014

SMITH, Jonathan Z. “Religion, Religions, Religious". In: Mark C. Taylor (ed.) Critical Terms for Religious Studies. Chicago, London: University of Chicago Press, 1998, p. 269-284.

TAMBIAH, Stanley J. Magic, science, religion, and the scope of rationality. Cambridge : Cambridge University Press, 1995.
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Estes textos são parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando.

A publicação deste boletim também conta com o apoio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC/SC), da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), da Associação Nacional de Pós-Graduação em História (ANPUH), da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll) e da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (Anpur).

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15/06/2020