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Boletim Especial

Boletim Especial

BOLETIM CIENTISTAS SOCIAIS
A QUESTÃO ÉTNICO-RACIAL EM TEMPOS DE CRISE

A pandemia Coronavírus tem provocado diversas mudanças na vida cotidiana de milhões de pessoas, alterando padrões de interação social e de organização da vida política e econômica. Esse fenômeno não poderia deixar de incitar a imaginação dos(as) pesquisadores(as) das ciências humanas e sociais, como prova o sucesso e a repercussão que teve nos últimos meses o Boletim “Cientistas Sociais e o Coronavírus”, editado por um consórcio de associações científicas que inclui a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), Associação Brasileira de Antropologia (ABA), Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Contudo, algo que se pode perceber é que um dos efeitos mais evidentes dessa pandemia tem tido pouco espaço nas produções dos(as) cientistas sociais, inclusive no boletim supracitado, a saber: a ampliação das desigualdades raciais e de formas explícitas de racismo no atual contexto.

Fenômenos como a violência policial, que atinge a população negra em um grau muito mais elevado, a precariedade no acesso à saúde e à educação, os altos índices de subemprego e desemprego, entre outros aspectos, mostram como as populações negra e indígena estão desigualmente inseridas na sociedade brasileira. A pandemia pôs em evidência e exacerbou todos esses processos, tornando essas populações muito mais vulneráveis aos efeitos deste momento tão dramático da história humana.

Nesse sentido, a partir da crença de que o papel dos(as) pesquisadores(as) em Ciências Sociais e Humanidades é o de dar maior visibilidade e compreensibilidade a essa e outras situações semelhantes e, também, na expectativa de reafirmar o comprometimento dessas ciências com um mundo melhor e menos injusto, propomos à comunidade acadêmica dar continuidade ao Boletim “Cientistas Sociais e o Coronavírus” com uma nova temática, a partir de perspectivas que busquem enfatizar os efeitos da pandemia sobre a população negra e outras minorias vítimas de desigualdades étnico-raciais. Esta é uma forma de incitar a publicização de pesquisas que ponham em evidência o aprofundamento do racismo e das desigualdades raciais neste momento e pode, além disso, ser uma oportunidade para reafirmar o engajamento de nossas associações científicas com o combate a todas as formas de desigualdades e injustiças em nossa sociedade.

Nesse sentido, contamos com a inventividade e a colaboração das nossas comunidades científicas para manter viva a saga iniciada pelo “Boletim Cientistas Sociais e o Coronavírus”, agora sob a roupagem do mote “A Questão Étnico-racial em Tempos de Crise”. Que muitas glosas inovadoras e impactantes possam surgir a partir desse mote geral! É o que deseja toda a equipe editorial envolvida no projeto.
Os textos, com até 1000 palavras, devem ser escritos em word e enviados para o e-mail: boletimcso@gmail.com

Editores: Paulo S C Neves (UFABC)
               Regimeire Oliveira Maciel (UFABC)

Secretaria Editorial: Marie Lozano (UFSC)

Comitê Editorial:
Alexandra Alencar (UFSC)
Carlos Benedito R. da Silva (UFMA)
Carlos Machado (UnB)
Cloves Luiz Pereira Oliveira (UFBA)
Flávia Rios (UFF)
João Batista de Jesus Felix (UFTO)
Joziléia Kaingang (UFSC)
Luciana Garcia de Mello (UFRGS)
Maria Nilza da Silva (UEL)

Equipe Técnica:
Roberta Kelly França (NEAB/UFABC)
Suzane Jardim (NEAB/UFABC)
Taís Oliveira (NEAB/UFAB)
Tarcízio Roberto da Silva (NEAB/UFABC)
Thiago Barbosa (NEAB/UFABC)

 

05/08/2020

Boletim n° 86 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Finalizando a primeira série do Boletim Cientistas Sociais e o Coronavírus: um balanço inicial

Por Miriam Grossi, Rodrigo Toniol e Marie-Anne Leal Lozano

Os primeiros registros sobre o coronavírus na imprensa brasileira ocorreram no fim da primeira quinzena de janeiro de 2020. Em uma breve notícia publicada em 17/01/20, no jornal Folha de São Paulo, a realidade do contágio ainda era distante, descrita quase com displicência: “uma doença respiratória misteriosa que apareceu na China1 está gerando preocupação (…) a segunda pessoa morreu, dezenas de pacientes continuam infectados e a Tailândia acaba de anunciar um segundo caso”. Em menos de 30 dias, os jornais já nos haviam familiarizado com a epidemia e iniciavam a espera pela inevitável chegada do vírus ao Brasil. No dia 17/03/20, exatamente dois meses após a notícia que mencionava o vírus misterioso, os jornais estampavam em suas manchetes o anúncio da morte da primeira brasileira por Covid-19 – uma mulher de 57 anos, em São Paulo. No primeiro dia da publicação deste boletim, no domingo, 22 de março, o Brasil registrava 22 mortes confirmadas pelo vírus. Hoje, quatro meses depois, no encerramento desta série, já ultrapassamos 76 mil mortes.

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Um olhar diário sobre a pandemia através do Boletim Cientistas Sociais e o coronavírus

Por Bianca Setti, Lucía Copelotti e Luciana Alvarez

Há pouco mais de quatro meses, quando ainda não era possível mensurar a dimensão que tomaria a pandemia de Covid-19 no Brasil, passamos a compor a equipe de edição do Boletim “Ciências Sociais e coronavírus”, publicado pela ANPOCS. A partir de então, engajadas em um trabalho conjunto e colaborativo, somamos às nossas rotinas estudantis e de pesquisa, uma série de outras tarefas que, além de pôr à prova nossas habilidades técnicas e de organização, nos mobilizaram criativa e reflexivamente. As funções de diagramar, editar, corrigir, elaborar introduções para cada publicação e selecionar imagens que conversassem com as temáticas exigiram uma leitura atenta de cada um dos textos publicados, possibilitando a aproximação com realidades até então desconhecidas para nós. E foi a partir da confluência dessas múltiplas funções, distintas e necessariamente complementares, que tecemos as reflexões que apresentamos a continuação.

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17/07/2020

Boletim n° 85 - Cientistas Sociais e o coronavírus

As desigualdades educacionais no contexto da pandemia do COVID-19

Por Amurabi Oliveira

Inúmeros intelectuais têm afirmado que a pandemia do COVID-19 trouxe mudanças sem precedentes para nossas vidas, evidenciando ainda mais as desigualdades existentes em nossas sociedades como as de classe, gênero e raça (Matthewman e Huppatz, 2020). Neste ponto, chama a atenção também o aprofundamento das desigualdades educacionais, principalmente no contexto do ensino remoto, que tem se colocado como uma “saída” para a continuidade das atividades didático-pedagógica nos mais diversos níveis de ensino. Proponho-me, portanto, a refletir sobre o aprofundamento das desigualdades educacionais no contexto da pandemia do COVID-19, realizando algum diálogo com a obra A Reprodução (Bourdieu, Passeron, 2008 [1970]), obra que completa meio século de existência.

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Desigualdades Sociais e as Agendas da Pandemia em um Município do Recôncavo Baiano

Por Felipe Fernandes

Muitos foram os artigos publicados neste Boletim sobre o impacto da COVID-19 no cotidiano de moradores de grandes centros urbanos. Me proponho a contar aqui uma outra realidade, do impacto da pandemia em um pequeno município do interior do Brasil, São Félix, no Recôncavo Baiano, região que circunda a Baía de Todos-os-Santos. Considerada majoritariamente negra, tem influência das culturas africana e indígena. São Félix tem 14 mil habitantes, está nas margens do Rio Paraguaçu, 110 km distante da capital do estado. A maioria da população é jovem, na faixa dos 25-34 anos; e a população adulta tem baixa escolaridade, com alta prevalência de analfabetos, apesar de 97,5% dos jovens até 18 anos frequentarem a escola. O município se divide entre sede e zonas rurais e se separa do município histórico de Cachoeira pela Ponte Imperial Dom Pedro II, inaugurada no século XIX e importante atração turística

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16/07/2020

Boletim n° 84 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Um mundo fora de lugar: COVID-19, política, trabalho e o confinamento na Espanha

Por Rosana Carvalho Paiva

As manifestações feministas de 08 de Março de 2020 foram belíssimas. Fomos umas 200 mil pessoas nas ruas de toda Espanha, 50 mil aqui em Barcelona. Em 14 de março, o presidente Pedro Sanchez (PSOE) promulgou o Real Decreto 463/2020, instituindo o estado de alarme, o confinamento e as medidas de segurança em saúde.

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Números e fatos que regem o pêndulo da segurança pública no Brasil

Por Renato Sérgio de Lima

Ao longo dos últimos meses, o tema segurança teve, como era esperado, forte destaque no debate público. Porém, mesmo em evidência, a área ganhou esse destaque mais pelas questões político-institucionais a ela associadas do que em função de uma discussão sobre redução da violência, do medo e do crime. Para entender as razões dessa dissonância, este texto aproveita reflexão feita para o Boletim Fonte Segura4, mantido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública para fazer um retrato panorâmico de alguns dos principais temas da agenda da área.

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15/07/2020

Boletim n° 83 - Cientistas Sociais e o coronavírus

O novo coronavírus e o sistema prisional paraense: por uma atenção à saúde da população carcerária

Por Luiz Márcio Cypriano, Larissa Cypriano e Luis Cardoso

A Constituição Federal de 1988 marcou o retorno à democracia no Brasil e garantiu o direito à saúde, à educação e a políticas sociais para diminuir as desigualdades. Mas os fundamentos das leis não foram sentidos pelos brasileiros empobrecidos, pois ainda hoje lutam para sobreviver à falta de assistência médica e educacional e de políticas de criação de emprego e renda.

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Carta a Maria do Mar: dialogando com mulheres no cárcere durante a pandemia

Por Marinês da Rosa

Inverno de 2020.
São José/SC, 8 de julho de 2020.
Centésimo quinto dia da quarentena, COVID-19.

Prezada Maria do Mar,

Espero que estejas bem. Lembras-te de uma conversa que tivemos em 2018 quando exclamaste "pode parar tudo, menos o correio"? Escrevo-te neste dia de inverno lembrando que naquele momento havia paralisações em diferentes setores do país e temias que os Correios tivessem parado também. Convivendo com vocês, aprendi o quanto as cartas são importantes para quem está encarcerada, como me ensinou também Maria das Dores3 que "as cartas são visitas que a gente recebe".

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14/07/2020

Boletim n° 82 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A “vitória” dos emojis: sobre a força dos pictogramas em tempos de distanciamento social

Por Rosemere Maia

2020 tem sido, para todos os habitantes do planeta, um ano excepcional. Que se entenda que essa condição não se refere a nenhuma grandeza ou excelência, mas ao fato de fugir por completo ao ordinário, à previsibilidade, à “normalidade”, colocando-nos diante de desafios e situações que nos parecem extraídos de algum filme de ficção. O distanciamento social - recomendado pela OMS, por pesquisadores/cientistas, pelos profissionais de saúde e gestores (ainda que recusado pelo nosso Presidente) - como forma de evitar a propagação do vírus e, consequentemente, viabilizar o “achatamento da curva”, tem levado cada um de nós à busca de outras estratégias de contato e interação com familiares, amigos e companheiros de trabalho. As redes sociais (Facebook, Twitter, Instagram, sites e aplicativos de relacionamento) tornaram-se, neste contexto, nossas principais aliadas. Multiplicam-se as mensagens e chamadas de voz via WhatsApp; proliferam as lives/videoconferências através de aplicativos como Skype, Zoom e Google Meet e, de forma contundente, tem crescido o uso de emojis, muitos deles para expressar toda a angústia e sofrimento que marcam o contexto da pandemia provocada pelo coronavírus SARS-CoV-2.

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Transformação social em tempos de crise: conectando passado, presente e futuro no enfrentamento à Covid-19

Por Thiago Gehre e Ana Gabriela Reis

Os impactos econômicos, políticos, ambientais e socioemocionais da pandemia de COVID-19 devem se estender por muito tempo, o que insta a reflexão sobre o papel da universidade pública brasileira (SANTOS 2020). Para tanto, apresenta-se como estudo de caso o projeto “Transformação Social em Tempos de Crise: conectando passado, presente e futuro no enfrentamento à Covid-19” (TSTC), da Universidade de Brasília, para o entendimento de suas potencialidades e inspiração para outras instituições de ensino superior no país.

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13/07/2020

Boletim n° 81 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A tragédia brasileira

Por Flávia Biroli

Muitos estudos têm ressaltado os efeitos da Covid-19 sobre contextos preexistentes de desigualdades. A indeterminação e os riscos de caráter sanitário e econômico são vivenciados distintamente pelas pessoas, dependendo de sua ocupação, de seu acesso a recursos que permitem isolar-se e cuidar de si e dos outros, das suas condições de moradia e sanitárias. Em outras palavras, a pandemia nos atinge coletivamente, mas isso ocorre de modo que as hierarquias e formas de vulnerabilidade que já existiam condicionam nossas possibilidades de lidar com seus efeitos.

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A pandemia e a extrema direita na Alemanha

Por Bruno Wilhelm Speck

Antes da tomada do noticiário político na Alemanha pela pandemia, o assunto mais discutido era a eleição de um novo governo subnacional no estado da Turíngia com os votos do partido da extrema direita, AfD. A eleição do governador daquele estado pelos deputados do parlamento estadual em fevereiro deste ano foi um escândalo político local que logo ganhou dimensões nacionais. Pela primeira vez desde o fim do regime nazista, um partido da extrema direita participou da formação de um governo. Um governo subnacional, mas mesmo nesse âmbito é uma novidade. As circunstâncias concretas são complexas demais para serem analisadas nesse espaço. Basta saber que foi mais uma linha vermelha sendo cruzada na ascensão do partido da extrema direita fundado há apenas sete anos, o AfD. Desde a redemocratização da Alemanha, após o regime de Hitler, a extrema direita sobreviveu em várias siglas partidárias. Todas insignificantes ou pequenas. Elas sempre tiveram mais sucesso quando o partido da direita moderada, o CDU, ao qual também pertence a chanceler Angela Merkel, encabeçou o governo nacional. Nos anos 1960, foi o NPD, nos anos 1990, os Republikaner e o DVU. Hoje é o AfD.* As primeiras siglas partidárias da extrema direita começaram e terminaram como insignificantes. No seu auge, conseguiram eleger representantes apenas para algumas casas legislativas estaduais. A novidade na ascensão do AfD está no rápido sucesso eleitoral em eleições nacionais. Em 2017, nas primeiras eleições nacionais disputadas pelo partido, o AfD obteve de imediato 12,6% dos votos, elegendo a terceira maior bancada no parlamento nacional, quase uma centena de deputados. Caiu como uma bomba no meio político.

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10/07/2020

Boletim n° 80 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Não soltei (virtualmente) muitas mãos, mas várias outras me escaparam

Por Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer

Passados quase 4 meses do início do isolamento social, muito já foi dito e escrito sobre a pandemia por diversas(os) cientistas sociais e profissionais das mais variadas áreas. Com este texto, espero contribuir compartilhando porque decidi dar aulas remotas, sem titubear, apesar de nunca ter feito isso e de ter sérias dúvidas a respeito das limitações, problemas e consequências desse recurso. Provavelmente, o que exporei foi vivido e sentido por algumas(ns) colegas e estudantes.

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Sociologia, processos sociais e pandemia

Por Jacob Carlos Lima

A atual crise econômica, política e social, num quadro de pandemia global, nos remete à tentação de fazer comparações com o mundo de há 100 anos atrás. Isso, mesmo considerando que as situações, embora aparentemente similares, se dão em um contexto totalmente distinto. O que nos leva a perguntar se estaríamos repetindo a tragédia da gripe espanhola de 1918 de forma ampliada com o Covid-19, assim como da ascensão do fascismo no mundo naquele momento e a ascensão do autoritarismo tal como assistimos agora. A partir de uma rápida discussão sobre o conceito sociológico de processo social, busco discutir alguns pontos de aproximação desses dois momentos históricos.

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09/07/2020

Boletim n° 79 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Notas para uma sociologia da saúde brasileira 

Por Rodolfo Puttini

O modelo de saúde de Leavell e Clark (Figura 1), adotado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para a organização da saúde pública dos países membros da Organização das Nações Unidas (ONU) desde as décadas de 1960-1970, atribui importância ao papel da medicina preventiva, cujo vigor epistemológico se encontra na prática médica ampliada à saúde coletiva na sociedade. A “história natural das doenças” é a referência metodológica do modelo preventivista de Leavell e Clark; esse modelo de conhecimento vem sintetizado na tríade ecológica (agente, hospedeiro, ambiente), cujo tempo/espaço de atuação se apresentam em dois domínios para a análise das ações médicas (individual) e das ações em saúde pública (coletiva): 1) o período pré-patogênico: pressupõe ação preventiva no nível individual e coletivo, em dois sentidos: a) atua-se para evitar a doença e b) é possível promover a saúde da população (por exemplo, a vacina seria então o alto valor científico de um bem de saúde aplicado à população); 2) período patogênico: diante da doença instalada, leva-se ao tratamento para cinco possibilidades de desfecho: cura, reabilitação, convalescência, invalidez e morte.

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Um mundo de ponta-cabeça? O “novo normal” pós-pandemia

Por Bruno Lucas Saliba de Paula e Victor José Alves Fernandes

Os versos da epígrafe sugerem que a História não muda seus rumos ao prazer de seus “passageiros”, mas a partir de esforços estruturais. No Brasil, inúmeros foram os episódios que levaram analistas a supor que estaríamos diante de pontos de inflexão histórica, a começar por Junho de 2013, passando pelo crime ambiental cometido pela Samarco em Mariana, até as queimadas na Amazônia. Esses casos alimentaram previsões de que o Brasil poderia, enfim, ampliar sua democracia ou revisar uma condição econômica baseada numa economia extrativista primário-exportadora. Contudo, os anos que sucederam cada um desses episódios foram marcados não só pela ascensão de candidaturas anti-democráticas, como também pela flexibilização e desregulamentação dos processos de legislação e fiscalização ambientais.

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08/07/2020

Boletim n° 78 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Vozes da Pandemia: uma história a ser contada

Por Isabel Cristina de Moura Carvalho

O direito de fala e de memória na pandemia foi tematizado pelo historiador Antônio Otaviano Vieira (2020) no 30º boletim desta série “Cientistas Sociais e o Coronavírus”. Vieira analisa a pandemia em Belém do Pará, tendo como contraponto a epidemia de sarampo na mesma cidade nos anos de 1748-1750. Constata como as vozes das pessoas comuns naquele evento foram silenciadas em favor de registros oficiais como os despachos dos juízes, do governo da capitania do Grão-Pará, dos vereadores, dos proprietários de escravos índios, de religiosos, ou mesmo conselheiros reais que viviam em Lisboa. Dessa forma, a experiência e os sentimentos das pessoas que sofreram a epidemia de sarampo no século XVIII chegam ao historiador de hoje apenas como um leve sopro, uma espécie de lapso de quem controlava as memórias oficiais (Vieira, 2020). Na pandemia atual, Vieira também identifica a produção de várias zonas de silêncio: governos negacionistas, baixos níveis de alfabetização, dificuldade de acesso à internet, a vida precarizada dos moradores de rua, as populações isoladas em áreas de difícil acesso na região amazônica. Ao final, o historiador se pergunta: daqui a 100 anos, quem terá a voz registrada? Como a atual pandemia será apresentada e quem será silenciado?

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Ativando a escuta em tempos pandêmicos

Por Soraya Fleischer e Daniela Manica

Nesse momento de pandemia e isolamento, a circulação de informações e reflexões tornou-se fundamental. Saber permite que nos protejamos, cuidemos umas das outras, imaginemos futuros. É importante circular ideias em vários formatos, como artigos em periódicos, colunas de jornal e textos provocativos como no Boletim da ANPOCS. Além de textos, mais familiares às Ciências Sociais, proliferaram os webinars e as lives. Esses seminários têm atraído um público numeroso, diverso e de toda parte do globo, ampliando enormemente a nossa voz e driblando fronteiras nacionais, fusos horários e barreiras linguísticas. Há também ensaios fotográficos e diários pessoais, materiais que oferecem vividamente a perspectiva de quem olha pela janela, de quem está dentro de quatro paredes.

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07/07/2020

Boletim n° 77 - Cientistas Sociais e o coronavírus

CONSTITUCIONALIDADE versus INSTITUCIONALIDADE: Direitos territoriais quilombolas em tempos de COVID-19

Por Kelly dos Santos Araújo e César Augusto Danelli Jr.

A Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 , através do art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), garante o direito à titulação das terras das comunidades dos remanescentes de quilombos, estabelecendo, sobretudo, que a garantia ao território não se limita apenas ao âmbito agrário, mas também aponta o dever do Estado em criar condições para que ocorra a titulação a fim de preservar o direito à identidade e territorialidade específicas dessas populações.

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Ações para o despertar da agricultura familiar frente a Covid-19

Por Jucilaine Neves Sousa Wivaldo

Entre algumas das conceituações sobre a agricultura familiar podemos destacar: a) a mão de obra empregada; b) o tamanho da propriedade; c) a direção dos trabalhos e d) a renda gerada pela atividade agrícola. A questão central está no fato de que a família que é proprietária dos meios de produção é, também, a executora do trabalho no estabelecimento (DE MESQUITA; MENDES, 2012).

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06/07/2020

Boletim n° 76 - Cientistas Sociais e o coronavírus

O enfrentamento da pandemia na África: algumas lições

Por Juliana Braz Dias

Ao ler a matéria da BBC News escrita por seu correspondente na África, Andrew Harding, senti um misto de espanto e indignação. Era 9 de março de 2020, décimo quarto dia do lockdown estabelecido pelo governo da África do Sul, onde resido temporariamente. O título da matéria anunciava: “Misteriosa queda abrupta de casos de coronavírus na África do Sul intriga especialistas” (conforme versão posteriormente publicada em português).1 De fato, duas semanas após terem sido tomadas medidas rígidas de isolamento no país, a taxa diária de novas infecções pelo coronavírus diminuiu de 42% para cerca de 4%, conforme anunciou o presidente Cyril Ramaphosa em pronunciamento à nação. Mas o que haveria de “misterioso”, “intrigante” e “inesperado” nesse dado? Não seria, ao contrário, uma consequência esperada de medidas exemplarmente adotadas?

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"O nosso tempo é o tempo da urgência": Os impactos da pandemia de Covid-19 em duas Residências Terapêuticas na Zona Norte do Rio de Janeiro

Por Monique Torres

Desde que iniciei a pesquisa de doutorado no Centro de Atenção Psicossocial, acompanhando as equipes de profissionais de duas Residências Terapêuticas na Zona Norte do Rio de Janeiro, me chamaram atenção os atravessamentos de precariedades nos serviços de saúde mental do Município, assim como as estratégias que os profissionais criam e manejam para lidar com múltiplas formas de escassez e não deixar desassistida a população que busca esses serviços.

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03/07/2020

Boletim n° 75 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Janelas escancaradas: o potencial da pandemia na mudança em políticas públicas

Por Felipe Brasil e Ana Cláudia Niedhardt Capella

Diversos estudos no campo de políticas públicas buscaram analisar o impacto de grandes desastres naturais, como tsunamis e terremotos, momentos de crises econômicas e de guerras no processo de formação da agenda governamental e na seleção de alternativas para a formulação de políticas. Esses estudos inseriram no debate acadêmico os conceitos de eventos focalizadores (focusing events) (Kingdon, 1984) e de eventos desencadeadores (triggering events) (Baumgartner e Jones, 1993), lançando especial atenção para suas características e a forma como eles são capazes de modificar o seletivo processo de formação da agenda, dada a grande mobilização e urgência na atuação governamental sobre os impactos causados.

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Capitalismo de vigilância se alimenta da pandemia

Por Isadora Teixeira de Lira

Em razão da pandemia de coronavírus, o ensino a distância se impôs para instituições de ensino públicas e privadas, em diferentes níveis. A modalidade foi adotada como um meio de transpor para o ensino a distância as demandas do ensino presencial, de forma imediata e abrupta, em uma tentativa de manter as condições de normalidade e funcionalidade, contribuindo para o agravamento das desigualdades sociais. A crise assume as dimensões que possui não apenas pela disseminação da doença, mas decorre de problemas estruturais alicerçados em injustiças sociais. Não sendo possível esgotar todas as problemáticas possíveis em relação à modalidade, destacamos duas questões: 1. condições de acesso à educação, que na modalidade a distância exige ao menos um dispositivo para conexão, acesso estável à internet e um ambiente salubre para as aulas; 2. as plataformas utilizadas para a realização das aulas.

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02/07/2020

Boletim n° 74 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Isolamento e distanciamento social: o impacto do coronavírus na vida dos jovens brasileiros

Por João Batista de Menezes Bittencourt e Alexandre Barbosa Pereira

“Tem outras coisas rolando ainda. A dengue ainda existe? A bala perdida contra o pobre da periferia é real? Não se morre só de corona. Até o uso da máscara é questionável, se colocada da maneira incorreta. Agora me diz como vou ficar em casa? É fácil para um playboy que tem sua mesada, ficar em casa com seu videogame, sua piscina. Eu tenho de dividir uma televisão com cinco irmãos” Gessé Martins, 24 (SOUZA, Cleber; ADORNO, Luís, UOL, 14/05/2020).

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Jovens Evangélicos de São Gonçalo e o Covid-19

Por Alline de Assis Xavier Maia

A pandemia provocada pelo Covid-19 trouxe muitas mudanças ao mundo globalizado. Todos os setores sociais tiveram de se reinventar mediante essa epidemia. No caso brasileiro, o novo vírus trouxe à tona um problema antigo que há muito acompanha o país: a desigualdade social. Noticiários diários têm colocado esta questão na ordem do dia: redes de solidariedade que ganharam ênfase, nosso maltratado sistema de saúde, os transtornos para conseguir um auxílio emergencial, a falta de investimento em ciência, entre tantas outras pautas.

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01/07/2020

Boletim n° 73 - Cientistas Sociais e o coronavírus

¿Cuál es la identidad de la Covid-19 en el arte?

Por Rosa Maria Blanca

¿Qué tipo de subjetividad está siendo producida en el arte durante la Covid-19? ¿Cómo viaja la Covid-19 en el arte? ¿Cómo se propaga este virus artísticamente? ¿Cuál es la imagen identitaria de la Covid-19 en el arte?

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Pandemia de lives: sobre covid-19 e música no Brasil

Por Rafael da Silva Noleto

O que a proliferação de lives musicais nas redes sociais diz sobre a precariedade da situação financeira de cantores/as e instrumentistas em tempos de covid-19? Em meio à pandemia de covid-19, qual a reflexão provocada pelo surgimento de editais emergenciais de apoio à cultura?

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30/06/2020

Boletim n° 72 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Os dilemas da educação no contexto da pandemia: tecnologia, desigualdade e democracia

Por Nayara Albrecht

É evidente que a pandemia do novo coronavírus acelerou um processo que já se encontrava em marcha em grande parte do mundo: a expansão das novas tecnologias. Entretanto, ao passo que tais tecnologias trazem otimismo, elas não estão imunes aos impactos das desigualdades. Nesse sentido, não é novidade que o Brasil se caracteriza como um país marcado por altos níveis de desigualdades econômicas, sociais, informacionais e regionais. A importância que adquiriu a tecnologia em diversos setores reforça ainda mais a necessidade de abordar tais desigualdades de forma holística ou interseccional na terminologia “da moda” nas Ciências Sociais.

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O amargo sabor do sorvete: interrupção de projetos de vida de sorveteiros ítalo-brasileiros na Alemanha em tempos de COVID-19

Por Diane Portugueis

O ano é 2020. O mês, abril. A primavera ressurge no continente europeu. Na Alemanha, após longo inverno, famílias e, principalmente, crianças e idosos anseiam por frequentar seu lugar predileto, a sorveteria.

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29/06/2020

Boletim n° 71 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A relação entre distanciamento social e violência doméstica durante a pandemia: o contexto do Piauí

Por Rossana Maria Marinho Albuquerque e João Marcelo Brasileiro de Aguiar

Desde o mês de março de 2020, a Organização das Nações Unidas (ONU) vem alertando para o agravamento das situações de violência doméstica durante o contexto de pandemia e recomendando aos países ações de enfrentamento. No Brasil, após as medidas de distanciamento social terem sido adotadas, os meios de comunicação vêm noticiando frequentemente sua relação com tensão e o aumento da violência doméstica. Em alguns estados, a exemplo de São Paulo e Rio de Janeiro, foi identificado o aumento de denúncias por meio do “Ligue 180”.

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O COVID-19 e o reconhecimento do trabalho doméstico como essencial

Por Michelle Franco Redondo

O anúncio do prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho (PSDB), reconhecendo o trabalho realizado pelas domésticas como essencial, pois oferece as bases para o bom desenvolvimento de outros trabalhos essenciais, como os dos médicos, poderia ser uma boa notícia. Especialmente para as trabalhadoras desse ramo, que veriam seu trabalho igualado a outro de grande prestígio social, e para um grupo de estudiosas sobre o Care (cuidado), que luta para que o trabalho doméstico seja reconhecido como fundamental e que a interdependência seja considerada na forma de governar. No entanto, o contexto no qual essa afirmação é feita modifica seu valor e nos incita a refletir sobre a nossa percepção da vulnerabilidade e da interdependência também em seu aspecto político. Para nos auxiliar nesta tarefa, apresentaremos a perspectiva do Care, mantida em sua grafia original, pois expressa, em inglês, tanto a ideia do verbo “cuidar” quanto a do substantivo “cuidado”. Para tanto, focaremos no trabalho doméstico.

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26/06/2020

Boletim n° 70 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A cultura da Covid-19 e a natureza humana

Por Luís Michel Françoso

Em recente entrevista ao programa Roda Vida1, o presidente do STF (Superior Tribunal Federal), Dias Toffoli2, reivindicou a figura do antropólogo Lévi-Strauss3 para declarar que “a democracia não é um dado da natureza, a democracia é fruto da cultura humana...”. A fala tornou-se emblemática, pois tergiversa a pergunta do jornalista ao questionar o atual estado de solidez da democracia no Brasil.

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Migrantes ambientais: direitos em tempos de COVID-19

Por Karina Pereira Guimarães Cavalcanti e Laura Magalhães de Andrade

Já não é de hoje que os fluxos migratórios ocorrem ao redor do mundo, principalmente quando se trata de catástrofes ambientais. Com a exploração desenfreada e má gestão na utilização dos recursos naturais, há o incremento de desastres naturais a nível global, o que gera um deslocamento em massa de pessoas em busca de locais seguros.

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25/06/2020

Boletim n° 69 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A pandemia e a propaganda potencialmente fascista

Por Patrícia da Silva Santos

Em meio à catástrofe pandêmica, surgem de todos os lados do espectro ideológico que não compactua com a direita radical, clamores racionais para que o presidente deixe de lado as disputas políticas e o negacionismo a fim de liderar o país, na tentativa de mitigar os efeitos de uma crise de proporções ainda incomensuráveis. Ouvidos moucos, Jair Bolsonaro segue sua cruzada anti científica contando com milicianos digitais que atuam no sentido de transformar a propaganda em “substância da política” (ADORNO, 2019, p. 24). Apelos éticos ao direito à dignidade humana não encontram qualquer ressonância. Os bolsonaristas não parecem preocupados em evitar a catástrofe, ao contrário, postam-nos, a todas e todos, à beira do precipício, em sua “fantasia de declínio” (Idem, p. 20).

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A pandemia da COVID-19 e a desigualdade de renda no Brasil

Por Raphael Villela e César Marques

Uma das principais questões do debate sobre a pandemia de COVID-19 tem sido os cenários da desigualdade. Isso porque se, grosso modo, todos são afetados pela pandemia, as condições em que isso ocorre são muito díspares. O Brasil, uma das nações com maior desigualdade de renda, demonstra múltiplas evidências dessa relação. Nesse contexto estão as desigualdades de recursos para vivenciar e lidar com o isolamento social, o acesso ao saneamento básico e aos serviços de saúde, bem como aos demais mecanismos de proteção e seguridade social.

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29/06/2020

Boletim n° 68 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Quando a Covid-19 chega aos CAPSad: usuários de drogas, saúde mental e SUS no Rio de Janeiro

Por Beatriz Brandão

Após sete meses de trabalho de campo em quatro Centros de Atenção Psicossocial para usuários de álcool e drogas (CAPSad) do Rio de Janeiro, comecei a escrever o relatório. A pesquisa revelava a importância da presença dos serviços do SUS nos territórios cariocas, como também as dificuldades de acessos dos usuários, da continuidade do tratamento e das rotinas profissionais. Embora muitos espaços contassem com a presença de uma rede de atenção e cuidado psicossocial, muitas lacunas eram vistas, principalmente no sentido da expansão de equipamentos e dispositivos para a atuação. Durante o tempo que me distanciava da última ida ao campo e a redação do relatório de pesquisa, chegou ao Brasil uma pandemia devido ao contágio pela Covid-19.

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Tempos de viralizações: reflexões temporárias

Por João Felipe Gonçalves

Para muita gente, em diferentes lugares do mundo, falar da Covid-19 significa falar de tempo. A atual pandemia tornou a temporalidade assunto privilegiado, a nível global, daquilo que Akhil Gupta (1995) chamou de “cultura pública”: a cultura compartilhada através de meios de comunicação em massa, na qual a internet e as redes sociais desempenham um papel cada vez maior. Dois tipos principais de formulações explícitas sobre a relação entre tempo e pandemia parecem dominar a cultura pública global: um salienta um tempo dilatado e indiferenciado, e outro um tempo de ruptura e mudança.

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23/06/2020

Boletim n° 67 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Reflexão antropológica sobre viver e conviver em família no isolamento social

Por Denise Machado Cardoso e Felipe Bandeira Netto

As Ciências Sociais, de modo geral, “não nos permitem” descanso, pois estamos exercitando incessantemente um olhar crítico e analítico sobre a sociedade. E em isolamento social adotado devido à pandemia global do Sars-Cov-2 (coronavírus) ou em outros momentos, onde passamos a conviver todas as horas do dia ao lado das mesmas pessoas, observamos sem cessar, de maneira crítica e analítica, nosso viver e/ou conviver com nossos respectivos grupos domésticos.

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O que a experiência do Covid-19 nos diz sobre deficiência, trabalho e acessibilidade?

Por Bernardo Oliveira, Daniela Navarini e Valéria Aydos

Bernardo tem Síndrome de Larsen, uma doença rara que o faz ter dificuldades para percorrer trajetos longos. Ele conta que, no primeiro dia de trabalho, na tentativa de deslocamento para a sala, sua coluna “travou”, deixando-o imobilizado por dois dias. Ao solicitar acessibilidade junto à Universidade na qual havia sido contratado, recebeu resposta negativa e, como única possibilidade de trabalhar, a redução das aulas e a preparação de atividades extraclasse para os alunos. Ou seja, o ‘trabalho remoto’ não havia sido uma possibilidade de ‘adaptação razoável’ oferecida a Bernardo para que pudesse exercer sua atividade sem prejuízo à qualidade do seu trabalho. Ocorre que, com o desenrolar da pandemia da COVID-19, ele é comunicado que “até o fim do semestre todos os cursos deveriam ser ofertados remotamente”.

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22/06/2020

Boletim n° 66 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Imigrantes, refugiados e o coronavírus: notas para reflexão

Por Alexandre Branco Pereira

As mobilidades humanas, que já eram pauta do dia e objeto de discursos securitários e de gestão bio(e necro)política durante toda a última década, tornaram-se tema central após a eclosão da pandemia do novo coronavírus. Como Paul Preciado argumentou, por ocasião da pandemia e do acirramento do controle de fluxos e mobilidades que ela causou, a nova fronteira necropolítica deslocou-se das divisas nacionais à porta de nossas casas e não para de nos cercar: o ar que você respira deve ser apenas seu, e a nova Lampedusa é a sua pele (Preciado, 2020).

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Pandemia, necropolítica e purificação simbólica dos cuidadores da morte

Por Welliton Caixeta Maciel

Nas últimas semanas, as vítimas fatais da pandemia têm saído dos números (sub)notificados/subestimados e dos gráficos em curva crescente noticiados pelas pesquisas e pela imprensa, e se tornado mais próximas de nós. Estão ganhando corpos com identidades, epitáfios sob o formato de imagens e narrativas apresentados na televisão e nos jornais, redes de afetos (não que já não as tivessem antes do óbito, obviamente). Mas, também, acondicionamento em sacos (quando não em câmaras frigoríficas ou deixados em casa à espera de lugar em cemitérios ou crematórios), urnas lacradas, sepultamentos atípicos e desumanos (em túmulos, valas, covas, buracos abertos e tapados por retroescavadeiras), sem direito a velório, deixando histórias de sofrimento e luto, sentimentos de dor e saudades em quem fica.

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22/06/2020

Boletim n° 65 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Capitalismo do massacre: enquadramentos da morte na pandemia de Covid-19

Por Everton de Oliveira

Oito de maio de 2020. Ultrapassamos, no Brasil, a marca de 9.000 mortos e de mais de 130 mil infectados. Em Brasília, empresários marcham na companhia do presidente da república em direção ao STF para pedir o retorno das atividades econômicas. Em Belém, no Pará, o prefeito declara que o trabalho de empregadas domésticas é um serviço essencial durante o isolamento (Sandes, 2020). Na mesma cidade, mas também em Manaus, ricos escapam de hospitais superlotados, alugando serviços de UTI móvel a preços que podem chegar a 80 mil reais (Rebello, 2020). No sul do país, mais precisamente no Vale dos Sinos (RS), as indústrias do maior polo calçadista do país voltaram a funcionar ainda em abril, quando a contaminação se acelerava no Brasil (Dihl, 2020). Aliviado, o presidente e fundador da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, disse que na “classe média, classe média alta, a pandemia já passou”, mas o problema é que “o Brasil é um país com muita comunidade, muita favela” (Moura, 2020). Mas, na verdade, o problema do Brasil, assim como nos demais países da América Latina, é que seu capitalismo é baseado no massacre de corpos descartáveis. Aqui, o capitalismo não preza sequer pela manutenção vital mínima da população, fundamental para o sucesso das principais economias globais. Pelo contrário, por aqui, aliado à nossa tradição exportadora, colonialista e escravista, o capitalismo mata, destrói, massacra, não sem antes tomar os corpos de mulheres e homens e vendê-los como sobrevida à “classe média, classe média alta”.

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COVID-19 nos quinze municípios com os maiores contingentes de população indígena do Estado do Amazonas

Por Cláudio Santiago Dias Jr.

Os últimos dados sobre o COVID-19 no Brasil mostram que o país atingiu o número de 101.147 pessoas contaminadas em 03 de maio de 2020. Os óbitos chegaram a 7.025 casos, com uma taxa de letalidade de 6,9%. A região Sudeste apresenta o maior número de casos confirmados (47,6%), seguida pelo Nordeste com (29,7%). A região Norte é a terceira com o maior número de casos confirmados (14,5%), seguida pelo Sul (5,5%) e Centro-Oeste (3,1%) (Ministério da Saúde, 2020).

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18/06/2020

Boletim n° 64 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Mercado imobiliário, neoliberalismo e Covid-19: a crise vista pelos olhos da “oportunidade”

Por João Paulo Macedo e Castro e Roberta Sampaio Guimarães

Após a crise financeira de 2008, muitos pesquisadores acreditaram que haveria uma superação do neoliberalismo por uma forma de governo mais justa. Outros, menos otimistas, apostaram que a sociedade neoliberal não se arrefeceria, argumentando que ela estaria fundada em uma racionalidade de mundo capaz de se adaptar a cenários adversos. Inclusive se fortalecendo.

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Imóveis Compactos: a tendência que foi pega no contrapé pela pandemia

Por Fagner de Carvalho Rodrigues

A cidade é um organismo vivo. É partindo desta afirmação, admitindo o metabolismo urbano como a expressão de relações sociais, econômicas, culturais, objetivas e abstratas, que se faz possível a compreensão do que é a cidade.

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17/06/2020

Boletim n° 63 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Travessia do medo: gestantes insulares e políticas de Estado no contexto do Covid-19

Por Camilla Iumatti Freitas

Estava navegando pelas redes sociais, uma das minhas principais janelas pro mundo nesse período pandêmico, quando me deparei com a notícia: “Por medo de pegar Covid-19, grávida se nega a deixar Noronha para parto e é levada pela polícia para o aeroporto”2. Fiquei sem fôlego: pela polícia?! Não quis acreditar. Na hora o conceito de violência obstétrica saltou aos olhos e me fez refletir sobre a precocidade desta violência naquela ilha.

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Solidariedade e gastro-política na pandemia

Por Uliana Esteves

Bilhetinhos no elevador, vaquinhas online, apadrinhamentos de colegas, lives de grandes artistas, campanhas promovidas por movimentos sociais e organizações não-governamentais. Essas são algumas das ações classificadas como solidárias que vimos surgir no momento em que o Brasil entrou – a contragosto da presidência da república – em isolamento social. Muitas delas envolvem a comida. Vão desde ofertas para fazer compras de supermercado para idosos à doação de cestas básicas para populações vulneráveis. Elas cuidam de prover o básico para a existência humana: a alimentação, que, no Brasil, é um direito constitucional.

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16/06/2020

Boletim n° 62 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Imagens que falam da pandemia

Por José R de J Santos

Observar a nova realidade social é um exercício de reflexão e ponderação sobre as novas estéticas e novas fronteiras que emergem a partir das novas etiquetas sociais. Elas são impostas pelo distanciamento social de prevenção da propagação e contaminação pelo novo coronavírus.

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Religião e Covid-19: notas sobre Cristianismos

Por Renata de Castro Menezes e Lívia Reis Santos

Há um desafio imenso colocado para os/as cientistas sociais, o de interpretar, à luz de suas experiências de pesquisa acumuladas, a realidade inédita imposta pela Covid-19 e assim distinguir alguns fios de Ariadne no labirinto vertiginoso em que fomos lançados. Os/as que trabalham com a sub-área da religião (notadamente da Antropologia da Religião com foco no Cristianismo, como é nosso caso) também se sentem interpelados, pois uma série de fenômenos relacionados a esse campo de estudos se tornaram evidentes e se potencializaram a partir da pandemia. Devido a seu volume, o que pretendemos apresentar aqui é um registro impressionista de sua variedade, acompanhado de algumas problematizações. São fenômenos que embora surjam com força no caso brasileiro, possuem características comparáveis, ainda que com variações significativas, no cenário mundial.

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15/06/2020

Boletim n° 61 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Não estamos em Guerra! A retórica belicista no enfrentamento ao COVID-19

Por Gabriel Fernandes Caetano

Com o aumento exponencial dos casos de COVID-19 pelo mundo, vários líderes têm comparado a pandemia a uma guerra. Em pronunciamento à Nação francesa, Emmanuel Macron adotou um discurso extremamente belicista: “Estamos em guerra... o inimigo está lá - invisível, ilusório - e está avançando”. Donald Trump, ao invocar o Defense Production Act declarou-se um “presidente em tempos de guerra”. Para o presidente da China, Xi Jinping, o país estaria passando por uma “guerra popular” pelo controle e prevenção da epidemia. Nas palavras de Boris Johnson, “esse inimigo pode ser mortal, mas também é derrotável”. Narendra Modi afirmou que médicos e enfermeiros indianos são “guerreiros Corona” que defendem a Nação6. Já o Primeiro-ministro Viktor Orbán declarou que a Hungria estaria travando uma “guerra em duas frentes”: contra a migração e agora contra o COVID-197. Por que, afinal, líderes mundiais estão adotando retórica de guerra diante da pandemia ocasionada pelo COVID-19?

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Conexões íntimas e corporalidades singulares: deficiência em tempos de pandemia da Covid-19

Por Helena Fietz, Anahí Guedes de Mello e Claudia Fonseca

Desde o começo da pandemia de Covid-19, foram muitas as discussões sobre quais medidas seriam adotadas por governos e populações a fim de conter a sua disseminação. No Brasil, conforme orientações da Organização Mundial de Saúde (OMS), grande parte dos estados e municípios adotaram medidas de isolamento e distanciamento social que requerem que fiquemos em casa junto aos membros do núcleo familiar, saindo somente quando for extremamente necessário. Essas políticas de prevenção e cuidado, direcionadas à “população em geral” são importantes; entretanto, falar de práticas de cuidado a partir de uma ética feminista (Puig de la Bellacasa, 2017) significa relativizar as respostas prontas e normativas pré-estabelecidas baseadas em preceitos universais, compreendendo que é necessário estarmos atentas à singularidade de cada situação. As perguntas que se impõem são: como essas diretrizes “universais” de combate ao novo coronavírus afetam os grupos sociais específicos? E, o que nos interessa em particular, como afetam as pessoas com deficiência que fazem parte do chamado “grupo de risco”?

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12/06/2020

Boletim n° 60 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A pergunta difícil: permanecemos socialmente vivos?

Por João Teixeira Lopes

Este texto aborda a situação da pandemia em Portugal que, neste momento (início de maio), parece controlada, após um período de confinamento severo (há pouco mais de mil mortes e cerca de 27 mil infetados). Para além da crise sanitária, grassa uma crise social e económica, particularmente permeável às desigualdades sociais.

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Essas são as perguntas certas? Vírus, doenças e seus contexto sociais

Por Amanda Domingues

Enquanto lia as notícias e publicações no meu feed de notícias do Facebook há algumas semanas, me deparei com uma antiga colega de classe da faculdade que se perguntava o que os antropólogos que criticam a ciência moderna estavam falando sobre o Coronavírus e sobre as possibilidades que esta mesma ciência estava criando para curas. Sua pergunta – e a crítica contida nela – se baseava principalmente em uma leitura desses antropólogos que vê a ciência moderna em conflito com outras formas de práticas de cuidados com a saúde, sejam elas formas institucionalizadas de práticas medicinais (como a acupuntura) ou formas que são entendidas pelo ocidente como magia e ritual.

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11/06/2020

Boletim n° 59 - Cientistas Sociais e o coronavírus

O Programa Saúde da Família como estratégia de enfrentamento da Covid-19 na periferia de Curitiba

Por Marcelo Nogueira de Souza

Autoridades sanitárias têm destacado a importância dos agentes e médicos da saúde da família no enfrentamento da pandemia de Covid-19. Trata-se de profissionais fundamentais na atenção básica em saúde, considerada a porta de entrada do SUS, para evitar que as transmissões se alastrem, especialmente em comunidades mais pobres. O Programa Saúde da Família (PSF) teve início em 1991 com o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) que tinha o objetivo de contribuir para a redução da mortalidade infantil e materna e ampliar a cobertura dos serviços de saúde para áreas mais desvalidas.

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Da educação presencial à educação remota: a experiência docente em tempos de coronavírus

Por Neiva Furlin

O coronavírus vem impactando todas as dimensões das nossas vidas. As questões econômicas e sociais, embora insuficientes e tratadas com lentidão, foram colocadas na ordem das políticas emergenciais. Já a educação ficou no descaso. O MEC emitiu portarias, como a de n.345 em março e a de n.395 em abril, dispondo sobre a substituição de aulas presenciais por atividades de aprendizagens remotas, por meio do uso de tecnologias digitais. Não houve um debate público sobre as desigualdades de recursos técnicos e de acesso à internet e à informação por parte dos estudantes e, inclusive de professores/as, além da realidade de preparação desses profissionais para enfrentar uma realidade imposta. Como garantir o direito de educação de qualidade, em tempo de pandemia, com situações sociais tão desiguais quando, segundo o professor Sérgio Hadadd, 40% da população não tem conexão à internet, muitos não têm espaço de estudo em casa e pais sem condições de acompanhar os processos de aprendizagem de seus filhos, seja por ter que trabalhar ou por não ter formação suficiente. Nesse período, as desigualdades de acesso ao direito de uma educação de qualidade ficam mais evidentes, tanto na rede privada e, mais ainda, na rede pública de ensino.

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10/06/2020

Boletim n° 58 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A mobilidade dos “homens lentos”: desigualdade e fluidez em tempos de pandemia

Por Fábio Bacchiegga

Movimento e fluidez são duas características pertinentes da sociedade globalizada, em especial após as intensas transformações nos sistemas de transportes e comunicações a partir da Terceira Revolução Industrial.

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Identificação partidário-ideológica e o COVID-19: evidências recentes

Por Bruno Marques Schaefer

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, governos, em diferentes países e a nível subnacional, têm tomado uma série de diferentes medidas em torno da ideia de isolamento social. O isolamento social, entendido como quarentena, lockdown, fechamento de setores econômicos não essenciais em meio à maior crise de saúde dos últimos tempos, tem por intuito a redução do estresse de sistemas de saúde e o achatamento da curva de contágio.

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09/06/2020

Boletim n° 57 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Pequeno ensaio sobre o cansaço

Por Ilka Boaventura Leite

Lendo o último livro da escritora Noemi Jaffe “O que ela sussurra” (Cia das Letras, 2020), passo a compreender melhor porque um regime totalitário não convive bem com a Arte.

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Campo de pesquisa sobre o Sistema Único de Saúde: notas sobre as competências científicas instaladas no Brasil

Por Marcelo Paiva e Mayra Juruá

Com o advento da crise sanitária do COVID-19, governos de diferentes países acionaram seus sistemas nacionais de ciência e tecnologia visando um novo tipo de controle: pressionar por resultados rápidos, eficientes e eficazes, com o intuito de acelerar estratégias de enfrentamento perante a pandemia epidemiológica. Ademais, uma análise consistente acerca da capacidade de resposta científica frente à pandemia não pode deixar de considerar a resiliência da própria ciência frente a um cenário crescente de negacionismo e deslegitimação perante a opinião pública. Em meio a uma profunda readequação política do mundo, o papel da ciência tem sido alvo de questionamentos públicos.

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08/06/2020

Boletin Especial: Cientistas Sociais e o Coronavírus - Semana 11

Em março de 2020 demos início ao Boletim Cientistas Sociais e Coronavirus. Naquele momento a ideia era apenas de ter um canal de expressão das Ciências Sociais brasileiras, que estavam (e continuam) sendo atacadas por diferentes instâncias governamentais. No entanto, a resposta dos colegas de diferentes áreas foi enorme, o engajamento dos leitores inspirador e as reflexões publicadas uma verdadeira demonstração da vitalidade das humanidades neste momento no Brasil. Começamos com um pequeno comitê editorial e equipe de apoio e hoje já temos mais de 20 colegas atuando nas diferentes frentes editoriais do Boletim. Do boletim, derivaram outros projetos. O podcast já está na praça e na próxima semana iniciaremos os webinars com autores de textos publicados no Boletim.

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08/06/2020

Boletim n° 56 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Por uma ciência que escute

Por Juliana Marques de Sousa, Juliana Borges de Souza e Damaris de Oliveira Santos

A polarização é um componente da razão pós-moderna, disse Harvey (1994). A ciência não ficaria imune a tal processo. A pandemia de Covid-19, no Brasil, chega ao seu estado agudo, sintomático de uma condição crônica: o fascismo. A paranoia dos inimigos nacionais é forjada para retroalimentar o poder político bolsonarista, a lista de perigosos só cresce; a ciência – quem a produz ou mesmo quem a admite – está sob ataque de uma fascistização generalizada.

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Cientistas à beira da pia

Por Cibele Aguiar

Em meio à pandemia decretada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 2020, um dos temas que ganharam destaque no noticiário e em debates sociológicos foi a importância da comunicação pública da ciência e a falta que ela faz. Paralelo à corrida para o desenvolvimento de estudos e publicação de artigos sobre diferentes facetas do vírus e seus efeitos na população mundial, o que se viu foi um conjunto expressivo de pesquisadores renomados tentando explicar para a sociedade a necessidade da lavagem das mãos, procurando metáforas para explicar as formas de transmissibilidade e esquemas simplificados para apontar o efeito da curva em crescimento exponencial. Instituições de referência em pesquisa tiveram que encontrar uma fórmula para adaptar a linguagem e convencer a população dos riscos e desafios de um inimigo poderoso e invisível.

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05/06/2020

Boletim n° 55 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Mobilidades familiares nas epidemias do Zika e do Coronavírus

Por Parry Scott

Para preservar a saúde, para prevenir a doença e para remediar os danos, sempre gestores e profissionais de saúde incluem nas suas recomendações dispositivos explícitos e implícitos sobre a mobilidade da população. Como cada epidemia requer articulações diferentes de fatores para compreender como agir diante dela, tais recomendações sobre mobilidade também são muito variadas. Com a chegada da pandemia do coronavírus, do COVID-19, o mundo acompanha estarrecido a litania “fique em casa,” “stay at home”, para ver pela mídia as ruas vazias do mundo lá fora e se sentir cidadão correto por seguir as orientações impostas a partir das políticas internacionais guiadas tecnicamente pela Organização Mundial de Saúde. Ainda, cada país se isola dos outros através da suspensão de mobilidades internacionais.

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“Drama Social” e “Liminaridade” em tempos de Covid-19

Por Hélder Pires Amâncio

A Covid-19 expõe de forma dramática situações sociais que estavam mais ou menos latentes no cotidiano da interacção social em diversos cantos do planeta. Revela o encadeamento de ações que ocorreriam imperceptivelmente no fluxo do dia-a-dia (CAVALCANTI, 2007): as vidas precárias, a vida nua, as políticas da morte.

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04/06/2020

Boletim n° 54 - Cientistas Sociais e o coronavírus

COVID-19, espaçamento social e o mundo por vir: a Reforma Agrária como parte da solução

Por Thiago Lima

O The New York Times1 repercutiu o alerta de que a principal tragédia do coronavírus no Brasil poderia ocorrer nas favelas, afinal, nestes lugares é praticamente impossível realizar o isolamento social e as medidas de higiene recomendadas pela Organização Mundial da Saúde. Para lidar com esta crise específica, que está mergulhada numa condição estrutural, argumentaremos que a Reforma Agrária deve ser parte da solução, pois ela pode criar um salutar espaçamento social.

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A urbanização preparou o terreno para o coronavírus no Brasil

Por Luiz Belmiro

Em meio à crise sanitária provocada pela pandemia do coronavírus, a defesa da ciência tem se tornado um verdadeiro mantra contra o negacionismo alimentado por pseudofilósofos e pelo próprio Presidente da República. Pesquisadores têm marcado presença regularmente em programas televisivos e canais do YouTube, procurando demonstrar que o combate à pandemia deve ser baseado em conhecimento científico ao invés de achismos e correntes de WhatsApp. Mas, qual o papel das Ciências Sociais nesta árdua batalha pela vida contra o irracionalismo?

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03/06/2020

Boletim n° 53 - Cientistas Sociais e o coronavírus

“Unidos pelo contágio?” Novas precarizações das famílias que têm filhos com a Síndrome Congênita do Zika Vírus em tempos de pandemia da COVID-19

Por Silvana Sobreira de Matos

Desde 2016, com a declaração da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) em Zika/Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCZV), as associações e famílias atingidas têm lutado para garantir políticas de equidade para estas crianças e suas cuidadoras. Estas famílias, já vulneráveis, tiveram com a epidemia do Zika Vírus sua condição agudizada. Muitas perderam seus rendimentos e tiveram que ingressar nas filas para acessar o Benefício de Prestação Continuada, ou, ainda, o Bolsa Família. Outras fizeram novos arranjos e permaneceram em seus empregos, embora pesquisas apontem que o nascimento de uma criança com deficiência impacta sobremaneira o orçamento familiar . Esta comunicação é resultado da pesquisa Etnografando cuidados (FAGES/UFPE)4 que desde 2016 acompanha estas famílias, suas associações e as políticas públicas referentes à SCZV.

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Itinerários do Medo: novos tempos de cólera

Por Luiz Antonio de Castro Santos

Experiências passadas nos levam de volta à terrível Black Death, no século 14, uma pandemia de peste bubônica que afetou sobretudo a Europa, durou vários anos e exterminou 60 por cento de toda a população europeia. A transmissão foi causada por uma bactéria, Yersinia pestis, que infectava gravemente seres humanos e é transmitida por pulgas em roedores e mesmo em pessoas vivendo sob condições higiênicas muito precárias. Tal foi o que se deu, em plena Idade Média, tempo de inúmeras pestilências.

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02/06/2020

Boletim n° 52 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Desestabilização da rede e empoderamento científico na crise do coronavírus no Brasil

Por Renan Gonçalves Leonel da Silva

A partir de março de 2020, vimos surgir importantes iniciativas oriundas de instituições de pesquisa do estado de São Paulo, como as três Universidades estaduais paulistas (USP, UNESP e UNICAMP), o Instituto Adolfo Lutz e Instituto Butantan, no sentido de implementar uma rede qualificada de suporte para a produção de testes diagnósticos moleculares para o novo coronavírus. O objetivo foi auxiliar o governo paulista no combate à pandemia da Covid-19, dando mais agilidade ao processo de testagem da população e, assim, informar a tomada de decisão das autoridades sanitárias também em âmbito nacional.

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Da fosfoetanolamina à cloroquina: notas sobre a politização da ignorância

Por Lenin Bicudo Bárbara

No dia 19 de março, Trump anunciou à imprensa seu otimismo com o potencial terapêutico da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com Covid-19. Dois dias depois, Bolsonaro engrossou o coro, garantindo que as Forças Armadas aumentariam a produção da cloroquina. Depois disso, falou ou tweetou quase diariamente sobre o assunto, por semanas. Numa de suas lives, disse com convicção que a hidroxicloroquina não tem efeitos colaterais, se “ministrada corretamente” – contrariando a informação da bula das caixinhas do remédio que agitava no ar enquanto falava

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01/06/2020

Podcast n° 08

Moçambique

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30/05/2020

Boletim n° 51 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Da Gripe Espanhola ao Coronavírus: notas etnográficas de uma visitante em Sevilha, Andaluzia

Por Violeta Maria de Siqueira Holanda

No dia 19 de abril de 2020, o Diário de Sevilha publica a matéria intitulada “El precedente del coronavirus: todo lo que pudimos aprender de la gripe española”, cuja autora, Encarna Maldonado, chama ali a atenção para as semelhanças de duas pandemias, ambas caracterizadas pelo alto grau de letalidade de um vírus, que aparece repentinamente e se espalha com grande velocidade por todo o mundo, sendo a pneumonia a sua expressão mais séria. Com início em 1918, estima-se que a gripe espanhola matou de 40 a 50 milhões de pessoas em todo o mundo, cerca de 250 mil na Espanha e 28 mil em Andaluzia. Nessa região, a gripe espanhola se manifestou em três ondas. A primeira foi antes do verão daquele ano, afetando sobretudo a população urbana; entretanto, com o calor, o vírus praticamente desapareceu, mas voltou em sua segunda onda, com extrema violência, a partir de setembro, durante o outono, afetando, então, mais a população da zona rural. A terceira onda veio no inverno seguinte, de forma menos letal e com impacto limitado (Diário de Sevilha, 2020).

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A pandemia expõe de forma escancarada a desigualdade social

Mônica Dias Martins

I.
As maiores vítimas da COVID-19 são, inegavelmente, os trabalhadores temporários e sub-remunerados, os que vivem de atividades informais e os desempregados, por habitarem as áreas mais precárias das grandes cidades brasileiras. No Ceará, a capital responde por quase 75% do total de infectados. O Boletim Epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde registra mortes em 103 dos 121 bairros de Fortaleza.

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29/05/2020

Boletim n° 50 - Cientistas Sociais e o coronavírus

“O vírus é de Deus, mas o presidente não pensa na saúde do povo”: sobre sofrimento, doença e teodiceias.

Por Réia Sílvia Gonçalves Pereira

Neste texto, trago o relato de Maria, uma mulher de 41 anos, de pertença pentecostal e moradora de uma favela de Campos dos Goytacazes, norte do Rio de Janeiro, onde atuo como pesquisadora. Em seus relatos, Maria conta como está vivenciando a quarentena. Entre a crença da origem divina do coronavírus e a preocupação pela preservação da saúde, Maria encontra novas possibilidades de exercício da crença longe dos templos. Atenta às disputas políticas travadas no período, contesta a postura do presidente Jair Bolsonaro na condução da crise sanitária. Maria apresenta algumas das controvérsias entre os evangélicos nos tempos de pandemia, colocando em perspectiva os conceitos de teodiceias (Das, 2008).

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La vida fuera de balance*: La pandemia como castigo

Por Alejandro Frigerio

La pandemia parece haber reavivado la tensión entre ciencia y religión – macrorelatos sobre el mundo cuyo límites son más difusos en discursos sociales de lo que se supone. Aunque pueden visualizarse como complementarios y refiriéndose a diferentes dimensiones de la realidad, durante esta pandemia las posiciones parecen haberse radicalizado.

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28/05/2020

Boletim n° 49 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Como pensar a velhice em tempos de coronavírus

Por Simone Dourado

Esses dias, como estudiosa do processo de envelhecimento, me dei conta de como as inúmeras notícias sobre a pandemia de coronavírus provocaram reflexões sobre as visões que construímos da velhice. A COVID-19, doença causada pelo vírus SARS-COV-2, provoca sérias infecções respiratórias e levou à morte quase 180 mil pessoas no mundo, até o fim do mês de abril de 2020, sendo os idosos os mais afetados. Me veio à lembrança o trecho de uma crônica de Rachel de Queiroz que reproduzo aqui...

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Como apoiar o início da vida em tempos de morte? Pensando sobre o ofício das doulas durante a pandemia

Por Giovana Acacia Tempesta

A pandemia de Covid-19 tem suscitado ou acentuado relevantes reflexões em torno do tipo de apoio oferecido à mulher gestante e puérpera. Nesta breve nota eu gostaria de focalizar o ofício das doulas e educadoras perinatais, profissionais que prestam informações qualificadas e apoio físico e emocional durante a gestação, o trabalho de parto e o pós-parto. A doulagem associada à educação perinatal vem se consolidando como uma ocupação nas duas últimas décadas, e ganhou força no bojo do movimento de “humanização” do parto e nascimento, que inicialmente visava denunciar o alarmante número de cesarianas realizadas no Brasil. O fundamento do suporte provido pelas doulas – cuja importância é endossada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) – consiste em tratar a mulher como protagonista da gestação, do parto e do puerpério, partindo da premissa de que ela pode viver essas experiências de maneira segura, digna e satisfatória, respeitando sempre as singularidades de cada situação.

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27/05/2020

Boletim n° 48 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Pandemia e o desafio da dependência tecnológica no Brasil

Por Nilson do Rosário Costa, Ana C. A. de Sousa e Alessandro Jatobá

A pandemia de Covid-19 mostrou ao mundo que as nações não podem abdicar da capacidade de produção local de insumos estratégicos em áreas essenciais no cuidado à saúde (equipamentos médicos, medicamentos e vacinas, por exemplo). O Ministério da Saúde não mais encontra neste momento no mercado internacional respiradores para ampliar a disponibilidade no setor público. As encomendas brasileiras à China foram canceladas por conta do aumento da procura pelos Estados Unidos, que se tornaram subitamente o principal importador mundial de equipamentos para cuidado médico intensivo. Leia mais

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A preponderância da sociabilidade do telefone em rede na quarentena brasileira

Por Bárbara Garcia Ribeiro S. da Silva

Há cerca de quatro semanas ou mais, em decorrência da pandemia causada pelo coronavírus, boa parte da população brasileira entrou em confinamento. De acordo com informação dada pelo governador paulista em coletiva de imprensa em 13 de abril de 2020, São Paulo apresentou uma taxa de confinamento social de 59%.

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26/05/2020

Boletim n° 47 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Crise do neoliberalismo, desigualdades e lutas sociais: notas sobre o futuro pós-pandemia a partir de Gramsci e Mathiez

Por Edna Aparecida da Silva

Nada será como antes, amanhã. Essa expectativa tem sido lugar comum nas análises da pandemia do COVID19, que observam um potencial disruptivo na crise sanitária, agravada pelo seu desdobramento global em crise econômica e social. Isto porque teria revelado aos olhos de todos, sem benefício da dúvida, os limites das ideias e políticas neoliberais, sinalizando o movimento para um ponto de inflexão.

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O que nos espera depois da pandemia?

Por Lis Furlani Blanco e Jonatan Sacramento

Nós, pesquisadores das ciências humanas e sociais, temos há tempos nos ocupado em fazer previsões sobre o mundo ‘pós-apocalíptico’. O futuro pós epidemia já está em disputa, como dizem alguns. A proposta deste texto, no entanto, caminha para outra direção. Nosso título é retórico. Mas acreditamos que a pergunta que ele nos traz pode contribuir para a breve discussão que pretendemos desenvolver aqui: o que epidemias como essa podem nos ensinar sobre aquilo que se entende como “normalidade”? Como podemos, a partir das ciências humanas, pensar uma doença (e sua epidemia) e seus efeitos na própria maneira que compreendemos a sociedade?

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25/05/2020

Podcast n° 07

Dona Maria

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22/05/2020

Boletim n° 46 - Cientistas Sociais e o coronavírus

O contexto da pandemia do Covid-19: desigualdades sociais, vulnerabilidade e caminhos possíveis

Por Eunice Nakamura e Cristiane Gonçalves da Silva

A pandemia de Covid-19 tem suscitado várias reflexões sobre a crise mundial e, principalmente, acerca da (im)potência humana. Há urgência para lidar com o vírus, com a doença, com a morte e com as profundas consequências para nossa cidade, nosso país e para o planeta. A rapidez com que o vírus se alastra, o aumento vertiginoso de casos confirmados, de internações de sintomáticos sem diagnóstico e de mortes em vários países tem nos sobressaltado de diversas formas, seja pela avalanche diária de informações, oficiais ou não, seja pelas inúmeras reflexões que nos chegam por escrito ou pelos vários debates online que têm ocorrido sobre o tema.

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Educação, desigualdade e COVID-19

Por Alexandre Silva Virginio

O ano de 2020 será lembrado por ser o primeiro ano do resto de nossas vidas. Desde que o Covid-19 passou a infectar e a vitimar muitas ao redor do mundo, a exigência de seu controle trouxe desdobramentos sociais, econômicos, políticos, culturais e educacionais. Em resumo, a preocupação com a saúde impôs o isolamento social; a atividade econômica dos países encolheu e a importância do Estado e de políticas sociais vigorosas revelou que o mercado não atenta para as necessidades básicas da população; as democracias têm respondido melhor à demanda de contenção da pandemia; o trânsito pelas redes sociais tornou-se ainda mais central ainda para as interações e relações sociais, bem como para a produção e consumo cultural. Da mesma forma, o ambiente educacional teve que responder ao contexto epidêmico. É este último elemento que queremos analisar no contexto da desigualdade social brasileira.

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21/05/2020

Boletim n° 45 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A vida na quarentena: Deslocamentos e aglomerações de pessoas em Fortaleza

Por Danyelle Nilin Gonçalves, Irapuan Peixoto Lima Filho, Harlon Romariz Rabelo Santos e Rafael de Mesquita Ferreira Freitas

Este é o relatório parcial de pesquisa não inferencial realizada entre 08 e 11 de abril de 2020 sobre a vida em quarentena e deslocamentos em Fortaleza-CE por ocasião da crise da Covid-19, que faz parte de duas investigações maiores: uma sobre deslocamento e mobilidade urbana e outra que se propõe a analisar a vida durante esse momento de pandemia.

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O jogo do vírus e as políticas do estar juntos

Por Carlos Mendonça

Em um momento de reclusão provocado por uma pandemia, somos afetados pelo vírus mesmo sem estarmos contaminados por ele. Não é uma manifestação subjetiva apenas, é um fluxo global que nos atravessa. Um afeto advindo da ameaça pública (MASSUMI, 2010). Afetos são potências capazes de alterar os movimentos dos corpos (SPINOZA, 2007; CLOUCH, 2010; STEWART, 2007). Diante de um vírus altamente letal, para o qual não há vacina, todas as pessoas tornam-se transmissoras da morte. Diante disso, somos obrigados a nos isolarmos. O estar junto se transformou em algo ameaçador. Confinados. Pessoas de todos os lugares socializam, nas plataformas digitais, suas experiências na clausura. Uma descarga de tensões. O que vemos e lemos nas redes sociais são manifestações de medo, de esperança, de insegurança, de buscar formas para reduzir a solidão. Vemos e lemos as emoções – sentimentos manifestos de modo cônscio pelos sujeitos (CLOUGH, 2010). Catálises intersubjetivas, expressões afetivas globais diante do reconhecimento amplo de nossas vulnerabilidades (BUTLER, 2015). A vida em jogo.

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21/05/2020

Boletim n° 44 - Cientistas Sociais e o coronavírus

As mulheres negras e a pandemia do coronavírus

Por Viviane Gonçalves Freitas

No dia 11 de março, a Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou a pandemia do novo coronavírus. Onze dias depois, a primeira mulher vítima da Covid-19 morria no Brasil: era uma trabalhadora doméstica, de 63 anos, negra, hipertensa, diabética, trabalhava no Leblon e morava em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro. A quarentena para toda a população carioca foi decretada pelo prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) no mesmo dia e começaria a valer na terça-feira seguinte, 24 de março. Naquele momento, havia a informação de que os casos de contágio notificados no país ainda eram importados e os viajantes deveriam ficar em quarentena, mas Cleonice Gonçalves estava cozinhando na casa da empregadora, quando esta retornou da Itália, trazendo na bagagem muito mais do que boas recordações da viagem. Infelizmente, este não é um caso isolado e se repetiu em vários noticiários, a ponto de muitos acreditarem que a Covid-19 fosse apenas uma “doença de ricos, que viajaram para o exterior”.

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COVID-19 nas prisões brasileiras: seletividade penal e produção de corpos descartáveis

Por Kátia Sento Sé Mello

O impacto da pandemia no sistema prisional brasileiro, além de ser muito grande, revela a falta de homogeneidade no sistema, na forma de lidar com a gestão das unidades prisionais. Alerta-se para a inconstitucionalidade com que as secretarias estaduais e o governo federal lidam com a gestão das vidas das pessoas privadas de liberdade, em sua maioria pobres e negras. A falta de informações sobre as pessoas atingidas pelo vírus, tanto as privadas de liberdade como os servidores públicos responsabilizados pelos seus cuidados e o descaso com que os familiares das pessoas presas são tratados refletem a ausência de ética voltada para a valorização das pessoas. A maioria das famílias não consegue informações sobre o estado de saúde dos seus familiares nem se algum deles foi acometido pela doença relacionada ao vírus.

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20/05/2020

Boletim n° 43 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Os “SEM SEM” no Brasil de pandemia COVID-19: desenCPFsados Anônimos-Aparentes e o Auxílio Emergencial

Por Rosa Ibiapina

A vida cansada de brasileiros anônimos que estão em seus cotidianos em busca de emprego, de trabalho, de renda e de um suporte de Estado favorável à uma sociedade justa aparecem, surgem, mostram-se no sentido “sem lenço e sem documento” em referência ao anonimato de sujeitos que caminham contra o vento (à Ditadura) na música “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso, sujeitos estes que demonstram, em um contexto de pandemia do novo coronavírus que assola a sociedade brasileira (e global), um anonimato diferente, por escancarar à sociedade, por se mostrar à sociedade, como desempregados, sem renda, sem Cadastro de Pessoa Física (CPF), sem integração em política pública de enfrentamento à pandemia da COVID-19, logo, os anonimatos aparentes.

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Trabalhadores rurais em tempos de pandemia

Por Maria Aparecida de Moraes Silva

Uma leitura atenta das notícias veiculadas pelos diversos meios de comunicação aponta para a ausência de referências sobre os trabalhadores rurais. Num país, considerado o maior produtor de commodities do mundo, isto pode causar certa estranheza num primeiro momento. Na verdade, os trabalhadores rurais são ofuscados, negados pela sociedade mais ampla. Meu intento é contribuir para que esta névoa que os encobre seja retirada para que as pessoas possam enxergá-los como essenciais neste momento de pandemia que nos assola.

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19/05/2020

Boletim n° 42 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Um panorama sobre os grupos Ciganos e a Covid-19 no território brasileiro

Por Cleiton M. Maia e Edilma do Nascimento J. Monteiro

Sabemos que nos últimos dias os acontecimentos têm deixado toda população brasileira temerosa. O medo que nos assola, do ainda pouco conhecido coronavírus, tem se expandido de forma gradativa e contínua por todo território nacional, deixando populações que vivem em situação de vulnerabilidade, em uma condição ainda mais frágil.

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Os ribeirinhos e o novo coronavírus

Por Cristiane Montalvão Guedes

A pandemia do novo coronavírus ou coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (Sars-Cov-2) pode se configurar como lente de aumento da falta de compromisso, há décadas, do poder público em relação à população ribeirinha do Baixo São Francisco em diversos quesitos, como a sobrevivência, a saúde pública, entre outros. A saúde pública é a tônica deste texto frente à necessidade de intensificar a promoção da higiene e o isolamento social em tempos de Covid-19, quando o país já tem um quadro de 170.021 (cento e setenta mil e vinte um) casos de pessoas infectadas, com 11.653 (onze mil, seiscentos e cinquenta e três) mortes até 12 de maio de 2020.

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18/05/2020

Podcast n° 06

Cuidada e cuidadora

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15/05/2020

Boletim n° 41 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Educação e tecnologias digitais em tempos de pandemia

Por Suzana Cavalheiro de Jesus

No Brasil, a pandemia conferiu amplo espaço ao uso de tecnologias da informação e comunicação no planejamento educacional. O intuito primeiro seria o de não prejudicar o ano letivo nas escolas, nem os calendários acadêmicos das instituições de ensino superior. Com relação a este último, o Ministério da Educação, na Portaria 343, de 17 de março de 2020, autorizou “a substituição das disciplinas presenciais, em andamento, por aulas que utilizem meios e tecnologias de informação e comunicação, nos limites estabelecidos pela legislação em vigor”.

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Precarização docente, EAD e expansão do capital na educação: correlações com a portaria nº 343/2020 do MEC em virtude da pandemia do COVID-19

Por Átila de Menezes Lima

Complexo social de reprodução da sociedade, a educação vem sendo historicamente disputada por diversas concepções ideológicas, dentre as quais as visões econômicas mercadológicas. Leher (1999) demonstra o interesse e a participação do Banco Mundial na estruturação das diretrizes e currículos educacionais na periferia do mundo, das quais assinalamos a lógica das habilidades e competências. Um pressuposto imposto foi a ideia da educação enquanto capital humano. Nessa lógica a educação assume o papel de serviço.

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15/05/2020

Boletim n° 40 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Território e Vida Mental: Notas sobre o “mundo pós COVID-19” do lado de cá do planeta

Por Pedro Henrique Campello Torres

Karl Polanyi abre seu célebre livro, A Grande Transformação (1980), com a sentença de que a civilização do século XIX havia colapsado. Georg Simmel, meio século antes de Polanyi, em conferência que virou texto clássico nos estudos de sociologia urbana, A Metrópole e a Vida Mental (1973), apontou transformações e estratégias de defesa comportamentais no seio da sociedade de massa que se formava no século XIX e produzia o espaço das grandes cidades europeias. A atitude blasé, fenômeno psíquico reservado à metrópole, acrescida à fonte que advém da economia do dinheiro, "consiste no embotamento do poder de discriminar" (SIMMEL, p. 16, 1973). A antipatia, diria Simmel, protege os citadinos da indiferença e da sugestibilidade indiscriminada. Seria a metrópole, portanto, fornecedora da arena para o combate e a reconciliação dos combates.

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Mundos, Vida e vidas em jogo>> fabulações sobre quarentena e imaginação

Por José Miguel Nieto Olivar

Apesar de tudo o que ainda deve ser dito sobre o fim-do-mundo, hoje o nosso fim-do-mundo-de-cada-dia é a pandemia de COVID-19 e sua rede sócio-técnico-política. Neste texto, apresento cinco fabulações para pensarmos o mundo quando voltarmos do resguardo/massacre; pontualmente, estas fabulações estão conduzidas a partir da minha relação intensiva com a saúde pública. Escrevo de um lugar particular: apocalíptica São Paulo, março-abril de 2020, início da pandemia aqui. Escrevo da minha casa, ora Planeta León (com seus 3 anos) ora Planeta SARS-CoV-2 (com seu fedor de poucos meses), entre aulas que não pararam, reuniões que se multiplicaram, cozinha, faxina, música e tudo em transformação.

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14/05/2020

Boletim n° 39 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A (re)apropriação da categoria “grupos de risco” – da Aids ao COVID-19 – e a permanência do estigma sobre sujeitos em contextos pandêmicos

Por Ricardo Andrade Coitinho Filho

Com muita preocupação, mas também atenção às orientações preventivas globais, temos sido assolados por notícias de óbitos cada vez mais alarmantes, ocasionados pelo COVID-19. Ao longo de poucas semanas, notícias que se referiam ao epicentro na China, passaram a tratar sobre os países da Europa e, ainda que sob à espreita de uma concepção incrédula, também noticiavam o efeito drástico sobre os Estados Unidos. No contexto nacional, as sensações de medo e insegurança aos avanços e efeitos do vírus eram atravessadas por um modo de governo da “ignorância, da irresponsabilidade e da má-fé”, como descreveu Carrara (2020: s/p).

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Masculinidades e androcracia em tempos de COVID-19

Por Camilo Braz e Luiz Mello

Em 11 de abril deste ano, uma comitiva composta por políticos brasileiros, entre os quais o presidente da república, o ex-ministro da saúde e o governador de Goiás, visitou as obras de um Hospital de Campanha na cidade de Águas Lindas, em Goiás, em plena pandemia provocada pelo novo coronavírus. Vários aspectos chamaram a atenção dos meios de comunicação, no Brasil e no exterior, nesse que deveria ser um evento político relativamente banal. O principal, talvez, tenha sido o fato de que o presidente caminhou nos arredores da obra, sem máscara, para cumprimentar pessoas que ali estavam, provocando aglomeração (como havia ocorrido no dia anterior, quando ele circulou por estabelecimentos comerciais de Brasília, conversando e cumprimentando quem encontrava pela frente). Esse comportamento contrariou, uma vez mais, a recomendação expressa de distanciamento social como medida para frear a disseminação do vírus e evitar a sobrecarga do sistema de saúde, promovida pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial de Saúde, e reiterada em diversos veículos de comunicação e coletivas de imprensa por autoridades políticas, sanitárias, biomédicas e epidemiológicas em escala global, incluídos o ex-ministro da saúde e o governador presentes na solenidade de inauguração.

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13/05/2020

Boletim n° 38 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Os governos municipais frente ao Coronavírus

Por Marta Mendes da Rocha (NEPOL/UFJF)

Desde a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, em 26 de fevereiro, governos estaduais e municipais passaram a fazer largo uso de suas prerrogativas para conter a contaminação e minimizar os impactos da pandemia. O posicionamento do presidente abriu espaço para os governos subnacionais alçarem-se à posição de protagonistas na crise. Passados dois meses, questiona-se: quais as principais medidas adotadas pelos municípios; qual a velocidade e estabilidade da resposta dos governantes locais; que relacionamento predominou entre prefeitos(as), governadores(as) e presidente?

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O que esperar da ciência enquanto esperamos o amanhã

Por Guilherme José da Silva e Sá e Rafael Antunes Almeida

Talvez não haja pior momento do que a emergência de uma pandemia causada por um agente com alto poder de infecção para se estar preso a um negacionista. Ou ainda, talvez só tenhamos feito a passagem da epidemia à pandemia em razão da obstinação dos negacionistas.

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12/05/2020

Boletim n° 37 - Cientistas Sociais e o coronavírus

O impacto mortal da covid-19 sobre a economia e a demografia brasileira

Por José Eustáquio Diniz Alves

A pandemia da covid-19 chegou ao Brasil com um certo atraso, mas com uma força desproporcional, em decorrência da incapacidade do poder público de equacionar uma resposta eficaz para conter a propagação do coronavírus.

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A microbiologia cega do capitalismo

Por Henri Acselrad

O otimismo tecnológico e a naturalização da poluição exprimiram a tolerância das elites com os efeitos indesejáveis da industrialização nos primórdios do capitalismo: a tecnologia resolveria os problemas criados pela tecnologia, diziam então alguns peritos, buscando assegurar a continuidade dos negócios. Os males ambientais, enquanto isto, se abatiam sobre os pobres no entorno das fábricas. Naturalização da epidemia e otimismo tecnológico na gestão da crise sanitária são, hoje, os motes do neoliberalismo autoritário e socialdarwinista, exprimindo o que o antropólogo Eric Fassin chamou de “xenofobia a qualquer custo”, para o caso da Europa. Em sua versão brasileira, um “racismo a qualquer custo”, que propõe a prioridade dos negócios ante a saúde dos mais desprotegidos, em maior proporção, negros e pobres.

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11/05/2020

Boletim n° 36 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Desigualdades digitais e educação: breves inquietações pandêmicas

Por Carolina Parreiras e Renata Mourão Macedo

Se há uma constatação quase imediata a ser feita – ainda que todo cuidado seja pouco quando falamos de conjuntura – é que a pandemia de COVID-19 traz consequências consideráveis para todas as esferas da vida social. Nesse sentido, nossa proposta é, a partir do somatório de nossas experiências de pesquisa sobre tecnologia e educação, traçar linhas de análise que ajudem a compreender alguns dos desdobramentos dos processos de virtualização do ensino na educação básica e superior. Partimos de uma perspectiva que não demoniza ou acredita em visões catastróficas em relação à tecnologia, mas sim, que se propõe a pensar seus muitos usos e os muitos contextos nos quais se insere, a fim de melhor compreender os desafios que esses usos encerram.

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O Digital e a Pandemia

Por Rafael Evangelista e Sérgio Amadeu da Silveira

Tendo a epidemia do novo coronavírus como contexto, muitas universidades e escolas estão tomando soluções apressadas e focadas no curto prazo. Buscam, a todo custo e sem refletir, manter condições de aparente normalidade, mas que aprofundam as consequências desiguais da doença – que afeta mesmo aqueles que não estão necessariamente doentes – e deixam de levar em conta a provável persistência a médio prazo das condições de isolamento. Embora o ensino a distância traga novos e importantes elementos que podem ser utilizados para a melhoria da educação, sua aplicação indiscriminada e sem as adaptações necessárias às devidas modalidades específicas de ensino dá a ilusão de que se está fazendo algo, porém com prejuízos inegáveis para a qualidade e a universalidade.

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08/05/2020

Boletim n° 35 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Deficiência, Coronavírus e Políticas de Vida e Morte

Por Patrice Schuch e Mário Saretta

Entre políticas explícitas e práticas ordinárias, a pandemia do coronavírus expõe de modo contundente decisões sobre vida e morte que implicam considerações sobre futuros possíveis. Os efeitos da pandemia não dizem respeito somente à relação entre um vírus e os corpos em sua generalidade, mas são coproduzidos politicamente, a partir das condições e estruturas desiguais das vidas e das práticas, programas e políticas para sua consideração.

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Deficiências e adoecimento crônico: permanências e atualizações trazidas pelo coronavírus

Por Carolina Branco Ferreira e Pedro Lopes

Como as experiências de adoecimento e/ou de limitações e diferenças corporais modificam a subjetividade das pessoas, particularmente daquelas que as vivem? Como esse processo produz cidadãos e cidadãs? Na “guerra” contra o vírus, está-se mirando a doença ou quem está doente? Neste texto, articulamos dinâmicas relacionadas a epidemias no Brasil, tidas como “controladas” ou “erradicadas”, às que estamos vivendo com a COVID-19. Consideramos como a categoria analítica de deficiência, bem como as experiências de pessoas que se reconhecem em relação a ela, opera em práticas sociais utilizadas para lidar e conter a pandemia. Essas dimensões analíticas e fundamentalmente políticas têm sido negligenciadas no debate e nas formas de enfrentamento do coronavírus.

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07/05/2020

Boletim n° 34 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Coronavírus, bolsonarismo e a produção da ignorância

Por Jean Miguel

Agnotologia é o estudo da produção cultural da ignorância. A ignorância, para esses estudos, não é simplesmente um “espaço vazio” na mente das pessoas, que poderia ser preenchido com informações a respeito de algum assunto. Através da perspectiva etnográfica, revelou-se que a ignorância possui contornos e coerência construídos por processos culturais, assim como certas regras pelas quais opera. Considerar a ignorância como um produto cultural pode parecer a princípio contraintuitivo, mas quando visto à luz de um exemplo concreto, o argumento se torna suficiente.

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Subnotificação e negacionismo: o que conta como real em uma (in)visível pandemia

Por Lucas Freire

A pandemia de COVID-19 que agora assola o planeta nos apresenta um quadro no qual a definição do real encontra-se profundamente atravessada por tensões sem precedentes na história contemporânea. Esses diferentes lados da disputa formulam versões distintas e contrapostas para afirmar, contestar ou recusar a existência de uma “mesma” situação, as quais variam desde as que afirmam que o novo coronavírus foi criado para redesenhar a economia global até as que defendem apaixonadamente que a pandemia é uma mentira. Segundo o que vem sendo alegado por especialistas de diferentes áreas do conhecimento e divulgado em reportagens publicadas ao longo das últimas semanas, a subnotificação é um dos maiores obstáculos enfrentados atualmente no Brasil, que é visto como um dos países que menos testa a sua população no mundo inteiro10. Nesse cenário, por um lado, o “pequeno” número de pessoas acometidas pela doença é utilizado para duvidar e até mesmo atacar as medidas de distanciamento oficialmente recomendadas; por outro, a escassez e fragilidade dos dados comprometem um planejamento eficaz de políticas de saúde para mitigar e combater o alastramento do vírus. Apontado como um denominador comum a ambos os problemas: o desconhecimento da realidade da pandemia de COVID-19.

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06/05/2020

Boletim n° 33 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Só o Brasil cristão salva do COVID-19?

Por Olívia Bandeira e Brenda Carranza

No domingo 12 de abril de 2020, das 16h às 18h20, a programação da TV Brasil foi interrompida para uma “celebração de Páscoa por videoconferência”, iniciativa do presidente da República Jair Bolsonaro e da primeira dama Michelle Bolsonaro. O evento contou com a participação de 20 lideranças religiosas cristãs (17 evangélicos e 3 católicos), além de um rabino. Lideranças de outras religiões, como as de matriz africana ou o espiritismo, não estavam presentes.

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Religiões em tempo de pandemia

Por Emerson Giumbelli

Para quem pesquisa a presença pública das religiões, a epidemia do coronavírus vem trazendo um instigante conjunto de situações a acompanhar. Há notícias que apontam casos documentados de transmissão da doença durante cultos cristãos ocorridos na França e na Coreia do Sul. As aglomerações provocadas por atividades similares tornaram-se no Brasil alvo de controvérsias bem conhecidas, desenhando campos em confronto. De um lado, a anuência à interrupção dos serviços ou ao fechamento dos templos como forma de colaboração com as medidas de isolamento, colaboração que pode ir até a conversão de espaços de culto em ambulatórios. De outro, a utilização do princípio da liberdade religiosa como fundamento para a manutenção das portas abertas e da realização de cultos, com a chance disso se estender ao anúncio de curas ou a promessas de imunização contra o vírus. Na perspectiva das autoridades civis, podemos encontrar oposição análoga, ora considerando-se a religião como um “serviço essencial”, ora tratando-a como um gerador de ocasiões de contaminação. Na opinião pública, por sua vez, pode-se reconhecer o papel da religião como assistência às pessoas em tempos difíceis, mas também a epidemia reforça a ideia de que a religião tem pouco a ajudar nessa crise.

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05/05/2020

Boletim n° 32 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Quarentena como fator de risco: reflexões sobre violência doméstica durante a pandemia do COVID-19

Por Maynara Costa de Oliveira Silva

Em dezembro de 2019, o mundo se deparou com a crise sanitária causada pelo coronavírus da síndrome respiratória aguda grave 2 (SARS-CoV-2). A doença surgiu na China, mas logo se alastrou pelo mundo. O vírus se transmite através de gotículas produzidas nas vias respiratórias das pessoas infetadas, tosse e espirro são os gatilhos dessa guerra. Medo, pavor, e novas políticas foram produzidos nestes últimos tempos.

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Ciências e tecnologias na pandemia de Covid-19: exposições, experimentos, expectativas

Por Rosana Castro

Após sucessivos cortes de verba pública, universidades e centros públicos de pesquisa receberam atenção e aportes financeiros do governo federal diante do avanço da pandemia de Covid-19 no Brasil4. Com diferentes ênfases e inclinações, autoridades nacionais vêm ressaltando a importância da produção de conhecimento científico e de alternativas profiláticas e terapêuticas para contenção dos impactos sanitários e econômicos do novo coronavírus. Tamanhos investimentos apostam que a luz no fim do túnel aparecerá, mais cedo ou mais tarde, quando da descoberta heróica de um novo medicamento ou de uma vacina, que restaurará a tão esperada normalidade.

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05/05/2020

Podcast n° 05

A América latina espelhada

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01/05/2020

Boletim n° 31 - Cientistas Sociais e o coronavírus

COVID-19 e Zika: narrativas epidêmicas, desigualdades sociais e responsabilização individual

Por Luísa Reis Castro e Carolina Oliveira Nogueira

Em 24 de março, com 2.200 casos confirmados e 46 mortes relacionadas à COVID-19 no Brasil, o Presidente Bolsonaro se dirigiu à nação, afirmando que “o grupo de risco é o das pessoas acima de 60 anos; então, por que fechar as escolas?” Propomos aqui uma reflexão a respeito das narrativas epidêmicas — enredos que vão se tornando familiar e comum, delineando a emergência, a dispersão e os efeitos de uma epidemia —, tendo como base não apenas o novo coronavírus (SARS-CoV-2) mas também a nossa pesquisa sobre Zika, um vírus apresentado como sendo transmitido somente pela picada de mosquitos e uma preocupação somente para mulheres.

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Questões sobre Antropologia e Emergências em Saúde: algumas palavras sobre a experiência do Zika Vírus e a Pandemia da Covid-19

Por Ana Cláudia Rodrigues e Luciana Lira

Em 2015 o Brasil foi palco da epidemia do Zika Vírus, que se espalhou por vários países da América Latina, Caribe e América Central. O vírus chegou ao país de forma massiva após a realização da Copa do Mundo de 2014, e teve o Nordeste brasileiro como a região mais afetada. Diferente de outros países, no Brasil a contaminação pelo vírus causou o nascimento de muitos bebês com a Síndrome Congênita do Zika (SCZ), popularmente conhecida como microcefalia. Pernambuco foi o epicentro dessa epidemia registrando mais de 470 casos confirmados de SCZ até o ano de 2019. Nesse contexto, o Núcleo Família Gênero e Sexualidade (FAGES) da UFPE, iniciou, em 2016, a pesquisa Etnografando Cuidados, cujo objetivo foi acompanhar famílias que tiveram filhos com a SCZ e suas relações com o Estado e a assistência à saúde. É a partir dessa experiência que pensamos a importância da antropologia na compreensão das epidemias nacionais ou mundiais e traçamos algumas aproximações entre a última grande epidemia decretada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o Zika, e a Pandemia do Coronavírus.

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30/04/2020

Boletim n° 30 - Cientistas Sociais e o coronavírus

O direito de fala e de memória na epidemia

Por Antonio Otaviano Vieira

Aqui estou, em março de 2020, na cidade de Belém, na Amazônia brasileira, trancado no apartamento com minha família e acuado pela COVID-19. Depois da quarentena, da estocagem de comida e do sumiço do álcool gel das prateleiras das farmácias, busquei um consolo para amparar minhas incertezas e esperanças. O encontrei no ofício que exerço, de historiador. Recuei aos anos de 1748-1750, também anos de epidemia em Belém, para estabelecer um diálogo com a atual crise epidêmica. E, o ponto que destaco como historiador, é: quem viveu a experiência do contágio em 1748, quem teve suas interpretações e lembranças acerca da epidemia preservadas. Num exercício de imaginação, não é de se estranhar que muitos falassem sobre a epidemia.

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As taxas de letalidade da COVID-19 e o afrouxamento das quarentenas

Por Everson Fernandes Pereira

Assim que alguns casos de COVID-19 começaram a ser notificados fora da China, diversos líderes políticos ao redor do mundo passaram a fazer comparações da doença causada pelo coronavírus SARS-CoV-2 com uma “gripezinha”, “um resfriado”. Em alguns casos, alguns líderes caracterizaram as notícias sobre a pandemia (até então classificada como epidemia) como “histeria da mídia”, “fantasia” e uma série de comentários que tinham como objetivo atenuar a gravidade da situação. Várias vezes houve quem assumisse que algumas pessoas iriam, sim, morrer, mas que morrer era parte da vida.

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29/04/2020

Boletim n° 29 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Gestar e parir em tempos de COVID-19: uma tragédia anunciada?

Por Rosamaria Carneiro

No dia 05 de abril de 2020 o protocolo de grupo de risco para o COVID-19 sofreu uma primeira alteração no Brasil. Entre as pessoas com maior risco de contágio estariam também as gestantes de alto risco e as puérperas: as gestantes diabéticas, hipertensas e portadoras de doenças crônicas em geral, por conta de suas cormobidades, e aquelas que recentemente haviam parido. Na mesma semana, ao seu final, a rota se alterara novamente e todas as gestantes foram incluídas como grupo de risco, bem como mulheres que recentemente viveram um aborto.

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“Medo do desconhecido” – Atenção às gestantes, parturientes e puérperas no contexto da COVID-19

Por Naiara Maria Santana

Rafaela Silva de Jesus, 28 anos, professora, do interior da Bahia, foi notificada como a primeira vítima de morte materna no contexto do COVID-19 no Brasil. Após uma cesariana realizada em hospital particular no dia 25 de março, mãe e filha estavam bem, cinco dias depois Rafaela apresentou sintomas como febre e falta de ar e foi levada à Unidade de Pronto Atendimento de Itapetinga. Chegando lá foi identificada como um possível caso de COVID-19, além dos sintomas ela havia estado da região extremo sul da Bahia, a qual registra grande número de casos da nova enfermidade. Os protocolos padrões foram colocados em prática pela equipe de saúde local - isolamento, intubar a paciente e ligá-la a um respirador mecânico. Rafaela, que necessitava de um leito de UTI não existente na cidade, acabou falecendo enquanto esperava o transporte para o hospital mais próximo em Vitória da Conquista.

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28/04/2020

Boletim n° 28 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Covid e mineração - a crise como o contexto e o lucro como necessidade

Por Rafael Lopo

No meio do turbilhão de trapalhadas e “desgovernabilidades” em que nosso país se encontra, o atual ministro de energia assinou, no dia 28 de março, uma portaria considerando a mineração como atividade essencial e que, portanto, não poderia ser interrompida devido ao surto de coronavírus. O lobby das grandes mineradoras junto ao Ministério para a assinatura da confusa Portaria nº135/MG une-se às diversas denúncias e conflitos envolvendo a segurança e saúde de trabalhadores (hoje em dia chamados de “colaboradores”) das empresas. O primeiro óbito registrado na cidade de Mariana foi um senhor de 44 anos que trabalhava em uma das muitas terceirizadas da Fundação Renova, esse fantasma, criado através de um acordo perverso, e que age concretamente em prol das mineradoras . Segundo o site “observatório da mineração” , metade das mineradoras não se pronunciaram ao serem questionadas sobre as medidas de contenção adotadas contra o coronavírus.

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Vulnerabilidade em Comunidades Rurais, Negras, Quilombolas e Indígenas Frente à Covid-19

Por István van Deursen Varga, Raimundo Luís Silva Cardoso, Rosana Lima Viana, Antonio Henrique França Costa, Marina Santos Pereira Santos, Dulcinéia de Fátima Ferreira, Maria Alice Pires Oliveira van Deursen, Luiz Alves Ferreira (in memoriam), membros do Núcleo de extensão em pesquisa com populações e comunidades Rurais, Negras, quilombolas e Indígenas (NuRuNI)

Em 28 de março de 2020, o Núcleo de extensão em pesquisa com populações e comunidades Rurais, Negras, quilombolas e Indígenas (NuRuNI), do Programa de Pós-Graduação em Saúde e Ambiente (PPGSA), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), publicizava a NOTA TÉCNICA – COVID-19 “para manifestar-se, com base em sua experiência em projetos e ações em campo, sobre as medidas necessárias para conter a pandemia da doença causada pelo coronavírus, a COVID-19, junto a essas comunidades e segmentos sociais”.

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28/04/2020

Boletim n° 27 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Da garantia de sobrevivência na profunda crise à almejada efetivação da renda básica da cidadania

Por André Ricardo de Souza, publicado em 24/04/2020

Neste quadro da pandemia do coronavírus que assola o mundo, algo apareceu com força enquanto medida já adotada em mais de cinquenta países enquanto crescente consenso para evitar um grande colapso humanitário: a política pública emergencial de transferência de renda às pessoas necessitadas. Isso remete ao panfleto escrito ainda durante a Revolução Francesa pelo político britânico Thomas Paine (2019), propondo que cada indivíduo recebesse um bônus no início da vida adulta e uma renda incondicionada já na condição “anciã” aos 50 anos de idade. Um século e meio depois, em 1944, o tema reapareceria refletido pelo economista liberal austríaco Friedrick Hayek (1990), porém não como renda universal, ou seja, para todos. Doze anos depois, isso seria discutido por outro economista liberal, porém estadunidense e vencedor de Prêmio Nobel nessa área: Milton Friedman (1984). Ele propunha um “imposto de renda negativo” para substituir programas do Estado de Bem Estar Social (Silva, 2019).

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Se esperarmos o agronegócio, morreremos de fome: população em quarentena quer alimentos e não commodities!

Por Lucas G. Lima, publicado em 24/04/2020

Em meio à pandemia, que tem vitimado diariamente milhares de indivíduos expostos ao coronavírus, uma questão salta aos olhos: quem garantirá a alimentação das pessoas durante a quarentena? No Brasil, onde mais de 5 milhões de pessoas passam fome (FAO, 2019) e quase 40 milhões vivem na informalidade (IBGE, 2020), essa é uma questão prioritária!

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24/04/2020

Podcast n° 04

Ciganos em quarentena

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24/04/2020

Boletim n° 26 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Autonomia não se confunde com teimosia!
Discriminação por idade em tempos de COVID-19

Por Jane Felipe Beltrão, publicado em 23/04/2020

Em tempos de pandemia, vejo com preocupação as posições discriminatórias ganharem força. E penso que a luta antidiscriminatória/antirracista precisa entrar em ação!

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A vida dos “velhinhos”, as conexões sociais e as lideranças institucionais

Por Heloisa Pait, publicado em 23/04/2020

Desde a campanha eleitoral, o atual presidente da república deixou claro que seu governo seria baseado na exclusão ativa e deliberada de certos grupos sociais. Pareceu a alguns distraídos que se tratava apenas de uma reação às enormes conquistas que negros, homossexuais e mulheres haviam obtido nas últimas décadas, e não um projeto mais profundo, baseado no ódio, assemelhado aos projetos totalitários do século XX. Viram nas passeatas de mulheres de 2018, com jovens vestidas de modo exuberante, um bando de histéricas que mereciam levar uma lição nas urnas, surdos para o claro alerta de que os direitos estava em jogo.

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23/04/2020

Boletim n° 25 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Velórios em tempos de Covid-19

Por Andreia Vicente da Silva, publicado em 22/04/2020

No dia 25 de março de 2020, o Ministério da Saúde publicou um manual que define diretrizes sobre o “Manejo dos Corpos no contexto do novo coronavírus Covid-19”. Este manual contém recomendações técnicas que objetivam evitar a contaminação tanto dos profissionais que lidam diretamente com o cadáver quanto dos familiares durante os sepultamentos e enterros. Mas o que significam estas diretrizes no que diz respeito aos velórios do ponto de vista dos familiares? Quais os impactos do coronavírus nos rituais de morte?
Por Andreia Vicente da Silva.

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¿Cómo se gestionan la muerte y el duelo en situaciones de pandemia?

Por Gabriela Irrazábal e Ana Lucía Olmos Álvarez, publicado em 22/04/2020

El avance de la pandemia producto de la covid-19 ha llevado a los distintos países a adoptar medidas y protocolos de actuación sanitaria ante los casos de pacientes de gravedad que requieran la internación en unidades de terapia intensiva (UTI). La escasez de recursos ha llevado a la implantación de una jerarquización de los pacientes que privilegia a aquellos con mejor pronóstico de supervivencia (Linconao, 2020). Temas como la vida, la muerte y la justicia han sido tópicos de discusión tradicionales en bioética, especialmente a partir de la década de 1960 donde comenzaron a redefinirse los criterios de determinación oficial de la muerte. Los criterios clínicos oficiales para determinar el momento de la muerte basados en la interrupción del flujo sanguíneo fueron dejados de lado por el concepto de “muerte cerebral”1. Luego, surge la noción de estado vegetativo persistente (EVP) y aparecen situaciones a las cuales el criterio diagnóstico de muerte encefálica resulta ajena dando lugar a la “muerte neocortical”.

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22/04/2020

Podcast n° 03

Empregada doméstica

 

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22/04/2020

Boletim n° 24 - Cientistas Sociais e o coronavírus

O massacre do coronavírus
 

Por Fábio Mallart, Rafael Godoi, Ricardo Campello e Fábio Araújo

Avisa o IML, chegou o grande dia
(Racionais MC’s, Diário de um detento)

Feridas abertas e mal tratadas, restos de alimentos pelo chão das celas, fezes de ratos, pouca circulação de ar, racionamento de água, insetos por todos os lados. Enquanto alguns presos sequer levantam de suas camas – tamanha a debilidade da saúde –, outros permanecem em cadeiras de rodas. A possibilidade de tomar um banho, lavar as mãos ou higienizar quaisquer objetos, se dá apenas quando escorrem alguns fios de água de um cano na parede, que são armazenados em recipientes improvisados. Em tal local, onde o cheiro é insuportável, um preso nos mostra os pontos mal costurados de seu ferimento; outro jovem, sem conseguir levantar da cama, narra as dores da tuberculose.

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21/04/2020

Boletim n° 23 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Policiamentos em Tempo de Coronavírus. Relatos da ação e observação

Por Susana Durão

De um dia para o outro, precisamente a 13 de março, a UNICAMP assume a governança emergencial sanitária. Reitor propõe plano de contingência e suspende atividades presenciais mesmo antes do governo do Estado de São Paulo. Mas, como isso vai afetar as dinâmicas e sentidos do policiamento e vigilância comuns, consideradas parte das atividades essenciais em momentos de crise? Policiar é uma das dimensões mais concretas e materializadas operando a favor de uma ordem maior. Como diz James Sheptycki: o policiamento está para a governança como a ponta para a faca. Mas de que ordem estamos falando?

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17/04/2020

Boletim n° 22 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Vidas, economia e emergência

Por Federico Neiburg

Nos anos recentes nas ciências sociais e, em particular na antropologia, vem ganhando força uma crítica etnográfica ao conceito de vida que discute o seu caráter auto evidente e que questiona os binarismos que opõem vidas biológicas e vidas biográficas, vidas naturais e vidas sociais, os universos da vida e da morte, das vidas humanas e não-humanas, e que foca também nos vínculos entre as vidas humanas e a vida de outras espécies – vínculos esses tão importantes para jogar luz sobre a dinâmica sócio biológica da pandemia que atualmente varre o planeta. Igualmente relevante para entender o nosso presente são as relações entre vida e economia que até a atual crise pareciam ter ficado fora do radar das nossas disciplinas. Nesse breve ensaio proponho uma visão dessas relações (entre vida e economia) sobre as que venho trabalhando há algum tempo, sem imaginar nunca que elas teriam a dramática atualidade que ganharam nos últimos meses, transformando-se em questões estratégicas para delinear o presente e o futuro da nossa existência coletiva.

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16/04/2020

Podcast n° 02

De porta em Porta

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16/04/2020

Boletim n° 21 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A cidadania vertical no Brasil:  o caso do Coronavírus

Por Marcelo da Silveira Campos

Isolamento parcial, ou vertical, como vem sendo denominado, consiste essencialmente em retirar das relações sociais somente os grupos mais suscetíveis à mortalidade pela COVID-19 como, por exemplo, as pessoas acima de 60 anos, portadores de doenças como hipertensão, diabetes. A defesa do atual presidente Bolsonaro por esta medida, na base do discurso bolsonarista, toma como justificativa a “volta ao trabalho” em massa. É precisamente isso que fez insuflar as pequenas (ainda bem) carreatas em favor da “volta ao trabalho” no último domingo (29/03). Entretanto, em constantes reuniões e pronunciamentos no Planalto, diga-se muitas vezes contrárias às diretrizes do próprio Ministro da Saúde e da Organização Mundial da Saúde, as autoridades federais admitem que não há qualquer estudo para justificar tal orientação¹. Na última terça-feira (31/03), novamente, o presidente distorceu a declaração do diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, para questionar a quarentena e dizer que ele está certo na condução da crise.

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15/04/2020

Boletim n° 20 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Mortes Belas, Mortes Boas, Mortes Malignas e a Covid-19

Por Carmen Rial
A Louis-Vincent Thomas

Em uma das minhas últimas visitas ao apartamento de meu orientador de doutorado, o antropólogo africanista Louis-Vincent Thomas, no bairro elegante de Saint Mandé, em Paris, fiquei espantada com o modo pessoal de lidar com a morte, ele que era um especialista no tema. Seu apartamento estava forrado com fotografias da esposa, falecida havia pouco. Literalmente forrado, desde que se descia do elevador, no corredor, grandes banners reproduzindo fotos de diferentes épocas, muitas dela do seu rosto, fotos de identidade aumentadas. “É impressionante o número de fotos que uma pessoa tira durante a vida”, me comentou ao ver meus olhos fixados nelas. “Basta procurar nas gavetas, e lá estão elas”.

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14/04/2020

Podcast n° 01

Profissionais de saúde

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14/04/2020

Boletim n° 19 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Templos em tempo de pandemia

Por Ronaldo de Almeida e Clayton Guerreiro

Disse Jesus em Mateus 18:20 “Onde houver dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles”. Mas o que fazer quando um vírus (agnóstico e penetra) ameaça contaminar a roda de fiéis e levá-los à doença e, em alguns casos, à morte?

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13/04/2020

Boletim n° 18 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Ciências Sociais e o coronavírus

Por Roque de Barros Laraia

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COVID-19: Um novo velho conhecido dos indígenas

Por Artionka Capiberibe

Parece estranho dizer que uma doença que mal começa a ser descoberta seja familiar de longa data de algumas das populações que vivem nesse planeta. No entanto, esse é o caso em relação à experiência que começa a ser vivida pelos povos indígenas com a COVID-19. Assim se passa porque vírus e bactérias são aliados, há séculos, da ganância da exploração econômica, agindo junto com esta na mortandade das populações indígenas. Coqueluche, varíola, catapora, sarampo, malária, peste bubônica, tifo, difteria, conjuntivite e gripe são doenças cujos agentes patológicos exterminaram ou reduziram substancialmente povos que não possuíam barreira imunológica para os males trazidos com a suposta civilização. Os relatos sobre isso assemelham-se ao que nos apresenta o professor Roque Laraia e se sucedem ao longo do tempo. Mudam os microrganismos, mas os massacres permanecem.

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10/04/2020

Boletim n° 17 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Desterritorialização sem limites
Reflexões geográficas em tempos de pandemia (I)

Por  Rogério Haesbaert

Alguns dos mantras do globalismo planetário até aqui dominantes foram: movam-se, viajem, acelerem, cresçam, expandam-se, extraiam (os recursos), consumam, privatizem, flexibilizem (as relações de trabalho), “deslocalizem” (as empresas)... Tudo isso, frente à pandemia do coronavírus, repentinamente se inverteu: parem, não viajem, desacelerem, retraiam-se, não consumam, invistam em políticas públicas, estatizem (empresas em crise)... Aqui, em pleno boom neoliberal, como uma praga, o último mantra a ser contestado ainda não se inverteu: para os trabalhadores continua-se propondo uma flexibilização ainda maior das relações de trabalho, como se estivessem testando até onde vai a resignação dessa massa de (des)empregados extremamente vulneráveis. É como se, enquanto os ricos podem parar e se resguardar, os pobres devem continuar em movimento, se arriscando para garantir a nossa sobrevivência.

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09/04/2020

Boletim n° 16 - Cientistas Sociais e o coronavírus

As promessas de aprimoramento e o retorno à fatalidade

Por  Fabíola Rohden
 

Nas últimas décadas fomos levados a acreditar que seria possível atingir altos níveis de controle de nossas vidas por meio de recursos de cuidado em saúde e aprimoramento individual. Para uma parcela da população, detentora do poder de consumo, isso dava a impressão de uma certa “imunidade” a determinados riscos e, talvez, até mesmo, a uma pandemia. Este fenômeno está associado ao próprio processo de medicalização da sociedade, transcorrido ao longo do século XX e que se caracteriza, sobretudo, pela transformação de condições antes consideradas “normais” do decorrer da vida (como envelhecimento, gestação, puberdade) em objetos de intervenção pela medicina. Mais recentemente, o desenvolvimento de novas biotecnologias e das inovações advindas com a biomedicina tecnocientífica tem provocado uma certa inflexão neste cenário e produzido contornos particulares, o que se expressa pelo conceito de biomedicalização.

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08/04/2020

Boletim n° 15 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A gestão da pandemia do Coronavírus (Covid 19) no Brasil e a necropolítica: 
Um ensaio sobre uma tragédia anunciada

Por  Daniel Granada

A mobilização causada pela pandemia do Coronavírus em escala global se associa intimamente a um mundo em que as fronteiras nacionais não dão conta de manter fora de seus muros os indesejados e, consequentemente, as pestes que supostamente carregam em seus corpos. O contexto de disseminação da epidemia, associado à intensificação da mobilidade humana, levou os governantes a tomarem medidas fortemente restritivas de circulação de pessoas, sendo a que tem sido considerada como mais eficaz a de isolamento social. Os países fecham as fronteiras nacionais e impedem a entrada de estrangeiros em uma luta contra um inimigo invisível.

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07/04/2020

Boletim n° 14 - Cientistas Sociais e o coronavírus

As ciências e o conhecimento como ameaças

Por  Céli Regina Jardim Pinto

Desde que Bolsonaro assumiu a Presidência da República, a educação, a ciência e a cultura têm sofrido um grande desarranjo. A coleção de ministros ineptos, caricatos e até claramente fascistas é prova concreta do desprezo com que estas áreas têm sido vistas pelo governo.

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06/04/2020

Boletim n° 13 - Cientistas Sociais e o coronavírus

As populações do campo e o coronavírus

Por  Nashieli Rangel Loera

No estado de São Paulo existem 140 assentamentos rurais estaduais, onde moram mais de 7000 famílias espalhadas ao longo de 40 municípios (ITESP, 2019)¹. A região conhecida como o Pontal de Paranapanema ao Oeste do estado é a que concentra o maior número de assentamentos, 98 no total, e tem sido, nos últimos 15 anos, o locus etnográfico das minhas pesquisas sobre o mundo rural e as populações do campo.

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04/04/2020

Boletim n° 12 - Cientistas Sociais e o coronavírus

O enfrentamento e a sobrevivência ao Coronavírus também precisa ser uma questão feminista!

Por  Mariane da Silva Pisani

Como antropóloga que sou me dou o direito de iniciar este texto a partir de uma observação etnográfica. No dia 23 de Março de 2020, foi publicado no jornal O Globo[i] a matéria intitulada: “NASA usa experiência de astronautas para dar dicas de confinamento durante a pandemia de COVID-19”. Esta trouxe aos leitores e às leitoras cinco habilidades desenvolvidas por astronautas da Agência Espacial dos Estados Unidos da América (NASA) para viver isolamentos em períodos prolongados de tempo. A saber: comunicação, liderança, cuidados pessoais, cuidados do coletivo e vivência em grupo.

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03/04/2020

Boletim n° 11 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Pandemia COVID-19 e as mulheres

Por  Marlise Matos

Todos sabemos apontar e compreender, mesmo com as muitas mudanças ocorridas, os já estabelecidos papéis de gênero, onde às mulheres caberia o lugar de “cuidadoras”, de “donas de casa”, de principais responsáveis pelos domicílios e pelas famílias.

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02/04/2020

Boletim n° 10 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Violências contra mulheres em tempos de COVID-19

Por Patrícia Rosalba Salvador Moura Costa

Em tempos de confinamento por causa do COVID-19, órgãos internacionais, organizações não governamentais, movimentos feministas, estudiosas, ativistas dos direitos humanos e algumas instituições de governos estaduais têm chamado a atenção para a possibilidade de agravamento das violências contra mulheres. A relatora especial da Organização das Nações Unidas sobre violência contra mulheres, Dubravka Simonovic, destacou que esse problema pode aumentar durante a quarentena, porque o lar pode ser um lugar de medo e abuso para mulheres e crianças, e indicou, ainda, a necessidade de os entes federativos promoverem ações constantes de defesa às mulheres e de combate às violências domésticas.

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01/04/2020

Boletim n° 9 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A Globalização Perversa da COVID-19 : o exemplo de Rondônia

Por Maria Madalena de Aguiar Cavalcante

Os registros dos números de casos confirmados e de mortes da COVID-19 na China, e posteriormente na Itália, chamou a atenção do mundo em relação à pandemia. O novo coronavírus chega ao Brasil, no estado de São Paulo, em meados de fevereiro, do corrente ano. Diante do cenário catastrófico que se configura no país e no mundo, este é um primeiro esboço do registro espaço-temporal dos suspeitos e casos confirmados no estado de Rondônia, evidenciando a importância da obtenção de informações sobre a evolução da COVID-19 de modo diário e por municípios, como auxílio às ações preventivas, corretivas ou restritivas tomadas pelos órgãos públicos.

 

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31/03/2020

Boletim n° 8 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Não existe salvação individual na pandemia de Covid-19

Por Sandra Caponi

Os primeiros casos de coronavírus chegaram à América Latina com certo retardo em relação a China e aos países europeus. No Brasil o primeiro caso ocorreu no dia 26 de fevereiro e na Argentina, poucos dias mais tarde, no dia 3 de março de 2020. Esse retardo nos permite observar a evolução da doença nos diferentes países afetados pela pandemia e avaliar a eficácia ou ineficácia das medidas adotadas em cada caso. A primeira informação disponível é que a estratégia da quarentena e do isolamento social foi adotada na maior parte dos países afetados. Em alguns casos, como em Itália ou Espanha, essas medidas de isolamento foram adotadas tardiamente e hoje podemos observar as consequências terríveis desse atraso pelo aumento, antes inimaginável, de mortos pela pandemia. Em outros casos, como na China ou Coreia do sul, foram adotadas rapidamente medidas de isolamento que se mostraram altamente eficazes, fazendo com que os casos da doença diminuíssem até quase chegar a zero. Inglaterra e Estados Unidos se resistiram inicialmente a adotar as medidas de isolamento por motivos estritamente econômicos, mas logo tiveram que impor medidas de quarentena severas, no caso de Inglaterra por 12 semanas. Observando as medidas adotadas nos países de Europa e Ásia, assim como o drama hoje evidente de países como Espanha ou da Itália, que atingiu o número de 9.000 mortos por Covid-19, diversos países da América Latina decidiram iniciar um processo de isolamento social e logo de quarentena para limitar e bloquear as cadeias de transmissão do vírus.

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30/03/2020

Boletim n° 7 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A linguagem republicana diante da crise: uma análise de A Revolta da Vacina, de Nicolau Sevcenko

Por Vinícius Müller

Ao longo da História foram tantos os episódios nos quais sociedades enfrentaram riscos biológicos, que escolher um como exemplo sempre revelará um traço de arbitrariedade. Pois, não só sugere certa preocupação específica de quem está escolhendo, como também revela as bagagens que cada um que se aventura em entender a História carrega. Ou seja, o que define se escolho indicar a Peste Negra europeia ou o impacto das doenças ‘europeias’ em populações nativas da América como parâmetro de uma analogia histórica? Qual é mais pertinente para refletirmos sobre a crise que enfrentamos nestes dias de 2020? Tais escolhas são ampla e certamente sustentadas pelas leituras prévias e experiências profissionais de quem a exerce.

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28/03/2020

Boletim n° 6 - Cientistas Sociais e o coronavírus

A produção do social em tempos de pandemia

Por grupo de pesquisa Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade - TEMAS

Se não é novidade que no noticiário as editorias de ciência, economia e política se embaralhem - ao discutirmos a exploração de campos de petróleo ou a liberação de sementes transgênicas, por exemplo - durante uma pandemia a forma como nossa vida em sociedade depende e está entrelaçada a elementos não humanos fica ainda mais clara. No entanto, como a teoria social tem entendido o papel de um agente tão poderoso, como o Covid-19, na produção e alteração das nossas formas societárias modernas? E qual a sua contribuição para pensarmos e agirmos no mundo contemporâneo?

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27/03/2020

Boletim n° 5 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Medo Global

Por Gustavo Lins Ribeiro

A pandemia do corona vírus certamente inaugura uma nova classe de medo global. Não que não existissem anteriormente, as angústias, os pânicos e temores globais. Mas, como a globalização é um processo histórico que se torna cada vez mais agudo, é de se esperar que o último medo global seja mais intenso e complexo do que os outros. O que estou chamando de medo global? Aqui vai uma definição de trabalho: trata-se de todo temor totalizante sentido por todos os habitantes de um coletivo, na expectativa de uma enorme quantidade de mortes que potencialmente ou de fato atingirá a todos e acabará o mundo conforme foi conhecido até um determinado momento. Deixo a definição assim, de maneira ampla, para poder incluir alguns medos coletivos – obviamente sem nenhuma pretensão de esgotar os exemplos - que, apesar de não serem planetários certamente incluíram a sensação de fim de mundo, em uma espécie de arqueologia dessa terrível sensação, um verdadeiro fato social total, como diria Marcel Mauss, que condensa respostas fisiológicas, biológicas, psicológicas, culturais, políticas, econômicas, sociais e científicas.

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26/03/2020

Boletim n° 4 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Contenção de crises no Brasil e seus reflexos no mundo do trabalho sob as lentes da sociologia

Por Maurício Rombaldi

No Brasil, o começo de 2020 já se apresentava desolador, em razão das crises política e econômica enfrentadas pelo país. Ao final do primeiro trimestre do ano, o COVID-19 surgiu para agravar este cenário, com a instalação de uma crise sanitária. Impôs, com isso, um momento de inflexão impostergável sobre as políticas adotadas pelo governo federal. Na noite de domingo, 22 de março, foi lançada a Medida Provisória 927, que previu, dentre outras questões, a possibilidade de suspensão de contratos de trabalho por até 4 meses. Mesmo que, menos de 24h depois, sob forte pressão de diferentes setores da sociedade, o governo tenha retrocedido ao lançar dúvidas sobre a implementação parcial ou completa da MP, o simples fato de a ideia ter sido lançada já sinaliza a manutenção do ímpeto de flexibilização ou supressão de direitos trabalhistas, acompanhada da injeção de recursos e incentivos a empresários como estratégia principal de amenização dos efeitos das crises que se amontoam.

 

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25/03/2020

Boletim n° 3 - Cientistas Sociais e o coronavírus

As Ciências Sociais e a Saúde Coletiva frente a atual epidemia de ignorância, irresponsabilidade e má-fé

Por Sérgio Carrara

Este texto é parte de uma série de boletins sequenciais sobre o coronavírus e Ciências Sociais que está sendo publicada ao longo das próximas semanas. Trata-se de uma ação conjunta, que reúne a Associação Nacional de Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e a Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul (ACSRM). Nos canais oficiais dessas associações estamos circulando textos curtos, que apresentam trabalhos que refletiram sobre epidemias. Esse é um esforço para continuar dando visibilidade ao que produzimos e também de afirmar a relevância dessas ciências para o enfrentamento da crise que estamos atravessando. Acompanhe e compartilhe!

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26/03/2020

Boletim n° 2 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Covid-19: escalas da pandemia e escalas da antropologia

Por Jean Segata

Surto, epidemia e pandemia são termos do universo técnico da epidemiologia para a classificação temporal, geográfica e quantitativa de uma doença infecciosa. Eles são fundamentais para processos de vigilância e controle, definindo níveis de atenção e protocolos de ação. No caso da Covid-19, por exemplo, quando um número elevado de pessoas da cidade de Wuhan, na China, passou a apresentar uma infecção respiratória grave e desconhecida em um curto espaço de tempo, ligou-se o alarme para o início de um surto. Rapidamente, identificou-se a presença de uma nova variedade do vírus do tipo Corona e, em pouco tempo, casos semelhantes também apareceram em outras cidades e regiões do país e de fora dele. Era o início da epidemia. Ainda assim, como os números da doença continuaram aumentando em mais países e continentes, cobrindo quase todo o globo, a OMS decretou o que é considerado o pior dos cenários, a pandemia.

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23/03/2020

Boletim n° 1 - Cientistas Sociais e o coronavírus

Boletim n. 1 - Cientistas Sociais o o coronavirus

Por Rodrigo Torniol

Nos últimos meses a universidade sofreu ataques sistemáticos. A comunidade científica sentiu na pele a descontinuidade de seus projetos de pesquisa, vivenciou o corte de bolsas na pós-graduação e a perda de apoio para realização de eventos acadêmicos. Além disso, também nos vimos interpelados por acusações exdrúxulas como a de que os campi universitários possuem extensivas plantações de maconha. Agora, diante de uma crise global sem precedentes os pesquisadores são lembrados. Consultam os epidemiologistas, os estatísticos, os físicos, enfim, acionam a extensa rede de especialistas para entender o que está acontecendo, o que há por vir e como devemos agir. Nessas horas parece ser mais fácil de lembrar como o financiamento de pesquisa não é o mesmo que gasto puro e simples.

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22/03/2020